domingo, 23 de abril de 2017


Veio ter comigo certa vez um homem instruído.
«Sei o caminho, anda daí», disse-me.
Fiquei exultante.
Apressámo-nos os dois.
Pouquíssimo tempo depois, demos por nós
Onde os meus olhos não tinham préstimo,
E eu desconhecia o rumo dos meus pés.
Aferrei-me à mão do meu amigo;
Até que por fim ele gritou, «Estou perdido.»

Stephen Crane
in Lacre (traduções e versões de poesia de Vasco Gato - 2ª edição aumentada), Língua Morta, 2017.

quarta-feira, 12 de abril de 2017


Mas que procuram as nossas almas viajando
no convés de barcos aniquilados
apertadas entre mulheres amarelas e crianças que choram
sem poderem esquecer nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas indicadas pelas pontas dos mastros.
Estilhaçadas pelos discos dos gramofones
atadas sem o querer a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas estrangeiras.

Mas que procuram as nossas almas viajando
sobre as podres madeiras marítimas
de porto em porto?

Mexendo em pedras partidas, aspirando
a frescura do pinheiro com mais dificuldade cada dia,
nadando nas águas deste mar
e daquele mar,
sem tocar
sem seres humanos
dentro de uma pátria que já não é nossa
nem vossa.

Sabíamos que eram belas as ilhas
por aqui algures onde tateamos
um pouco mais abaixo ou um pouco mais acima
um espaço mínimo.

Yorgos Seferis, Poemas Escolhidos (trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), Relógio D'Água, 2017.