sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

«Sempre detestei a poesia de espalhafato, essa que se serve de todos os estratagemas de efeito mais recente, ou que parecem tal, para tentar promover o seu autor ou a sua autora. Sempre detestei os tolos e as tolas que se põem a usar a chamada banalidade processual para atingir a densidade de não sei que vazio; que se dispõem a poses tão ridículas para atraírem a atenção dos que confundem a escrita com a atracção de feira. Aparece sempre quem arranje suportes teóricos e laracha verborreica para promover esses e essas patetas; quem seja capaz de invocar tropas de filósofos mais em moda para defender um ou uma qualquer saltitante atrás do que mais calha: quer do pseudónimo em apito até à fotografia elaboradamente extravagante, da pilhéria frívola ao fogo de artifício dos simplismos arvorados em verdades anímicas. Seja em novos seja em menos novos, seja em poetas seja em críticos, sempre hei-de abominar estas e estes saltarilhos do instante, estes e estas seguidistas das trepidações supostas. Se há rançosos e rançosas assim em ebulição ou em enxúndia por aí, felizmente que também há quem permaneça entendendo a radical preocupação do acto vocabular com outras muito para além do balofismo promocionante. Que (são tão engraçadas estas coisas), nunca mais conseguem deixar de vir, nesta terrinha que persiste em ser lorpa, de Paris.»


- Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre (Presença, 1999).