segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Numa biblioteca municipal esquecida
Entre duas sucursais bancárias
Debaixo de dois livros muito finos
Empoeirados
À falta de arrumação
Na trepidante prateleira de plástico
Um livro de Fernando Echevarría
Alheio a todos os dedos curiosos
Do país e já agora do mundo
Sussurrando coisas indecifráveis
Aos berrantes alunos do nono ano da escola
Cada vez mais próximos dos exigentes empregos
Um livro que podia bem calhar a qualquer autor
O velho à entrada da recepção deixa cair
O suplemento cultural
Com as sugestões literárias do dia
Dois dedos tamborilam na estante de plástico
São os segredos comovidos da funcionária da biblioteca
Tamborilam uma chuva triste e muito doméstica
Cai rente a um livro de capa dura
Que dentro já traz chuva suficiente
Possivelmente um dos livros de Echevarría
Perto troveja a gargalhada em uníssono
De muitas camisolas de malha macias
Membros céleres e enriquecidos
Da idade branca e do inverno
Procuram o estorvo das mochilas
Tropeçam para longe da funcionária
Do seu hálito pesado e das suas conversas
Com os livros fechados ou sozinha
Estranhando a utilidade da luz
E a mudança da hora
Numa babel tão comezinha.