quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um exército de dois sai por aí a causar distúrbios entre o reino da infelicidade geral. O país, abastardado pelas novelas da crise, não liga meia, mas eles fundam um jornal nocturno para publicar as ridículas cartas de que falava o outro e vêem, nos dias seguintes, as páginas serem submergidas pelo direito de resposta de um verdadeiro povo, até ali mudo e oculto. A Constituição é reescrita em lençóis sob uma luz que geme nas intermitências do espanto e do prazer. A loucura salva. Fundem-se escolas e hospícios, orfanatos e lares de idosos, bordéis e conventos. Sacrossanta selvajaria! Não há templo onde dois ou mais corpos não possam tomar o altar e gritar «Deus», como uma obscenidade miraculosa. Um país melhor que este seria uma arena onde nos deixaríamos devorar por leões. Um país a sério seria um enorme terreno de caça, para sermos à vez as presas e os predadores. Mas os baldios em que te abandonas por estes dias não servem às grandes conquistas, às etapas heróicas que conspiraste em sonho tantas noites que já meio te esquecem. Um país não é isto. Aqui não se conhece ninguém. Ninguém sai nem volta a casa. Partilhas a cama com uma hiena que se alimenta devagar dessa carne que abandonas a noites putrefactas. Foste mais quando eras menos. Devias ter perdido a vergonha mas só te encheste de mais. Chegaste ao ponto de esperar em filas para votar em coisas como partidos. Ingressaste nas homilias do pequeno poder. Não te abandonas nem te perdes, tens relações sexuais como quem paga impostos e depois dizes o pior de quem te governa e dás por ti deprimido com o estado da nação. Não fazes parte, mas apareces em cada vez mais listas. Foste até ao jantar de natal da empresa. Dizes que tens fé, mas ninguém te dá ordens. Não tens líder, mas também não lideras ninguém. Há dias que te levam convencido de que és especial, mas ninguém está interessado nisso. Vais ao médico pedir uma extensão nos pagamentos à morte. Confundes cada vez mais facilmente a carência com o arrebatamento da paixão. Tens mais desculpas do que razões. A tua vaidade é desespero, o teu orgulho não passa de um longo currículo. Isto é um exagero. Não te revês. No fundo, e ao teu jeito, até és feliz. És livre, educado e tens amigos de sobra. Só no Facebook não para cima de imensos. Não tens vida para tanta vida.

Diogo Vaz Pinto, Anonimato (&etc, 2015)

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