quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Dádiva

Três e vinte e quatro da noite de natal, poucos táxis de serviço, centrais de chamada em sobrecarga, e ainda dois taxistas que me recusaram a corrida, desviada e pouco lucrativa, em noite de procura assegurada. Tudo isto somara duas horas de espera na praça soprada pelo vento de ninguém. Mãos frias nos bolsos, cigarros contados no maço a minguar, eis a fraternidade do natal, repetia para mim mesmo com ironia amarga, o rude coração da besta que nenhuma veste engana. Ex-lutador de boxe, temido contendor de copos e de brigas, um metro e oitenta e três para noventa quilos de peso (perdera mais de vinte à data em que se lhe declarou a doença), ergui a mão e ele parou, indiquei-lhe o destino e ele arrancou. Não fez qualquer pergunta, não revelou qualquer hesitação, engrenou a mudança com a indiferença de quem para todos os destinos encontrou equivalência e em todos morre. Da doença me falou na segunda metade da viagem, depois do quase despiste que originou a conversa. Diabetes, fígado, mulheres, álcool, erros e erros, ultimamente os rins, tudo isto emaranhado, confundido, e por fim os olhos, era para eles que toda a sua atenção convergia. Trinta por cento de visão no olho esquerdo, quarenta por cento no direito, por vezes havia coisas que lhe escapavam, mas o carro agarrava-se bem, melhor do que se fosse um dos novos, e ele tinha muitos quilómetros nas mãos, várias voltas ao mundo, assegurava, enquanto afastava as mãos do volante e sopesava o ar nas palmas nuas. Fosse como fosse, tinha de continuar a trabalhar, não apenas por ele, mas por quantos dele dependiam, bastantes, deixava antever, na vida aventurosa que havia levado. Filhos, mulheres, noivas, amantes, todos ligados a si por fios que o tempo cruzara, prendera, partira, deixando as pontas caídas nas margens que antes estreitara. A gente quando tem saúde não pensa que a pode perder, afirmou ponderoso, acentuando na pausa todo o implícito, e esta cidade está uma miséria, quem por aqui anda não vê a pobreza que nela vai. Ex-lutador de boxe derrotado, com filhos e noivas dispersos pela cidade, a morrer devagar e a lutar por morrer um pouco mais devagar, olhar fixo como o dos cegos, a percorrer uma estrada mais do que vista adivinhada, por ela avançávamos na noite desesperada envolvidos pelo ruído trepidante do carro (um ronco lasso como se de exaustão do motor, fustigado aqui e ali por intermitências de lata). Do banco do condutor, virando-se para o lado ou fixando-me com os olhos através do retrovisor, ele descrevendo em pormenor o curso da doença, eu ouvindo-o e comentando em linguagem técnica, pois cedo pressentira que supunha em mim o médico que não era. Parou à porta de minha casa e ficou alguns minutos a conversar (tão pobre à luz de presença que acendera para contar com dedos argutos as moedas que perfaziam o troco). O que o preocupava, ele que morria e bem o sabia, eram ainda os olhos, e com eles o trabalho que não podia parar. Desde ontem sentia que andava a ver pior, talvez tivesse feito outro descolamento de retina. Disse-lhe que não devia ser nada, se não havia diminuição do campo de visão, olho a olho testado com a mão a tapar o olho contrário, exemplifiquei para o tranquilizar, não devia ser nada. Despedi-me com pena que tivesse de regressar sozinho, da forma que guiava, cada viagem, parecia, podia ser a última. Desejei-lhe boa noite e boa viagem. Desejou-me boa noite e esboçou um sorriso quase de criança. Longe do natal das famílias, à hora em que estas já haviam apagado as luzes e recolhido os restos de comida e de embrulhos em sacos do lixo fechados, aconteceu este encontro entre desconhecidos que se deram e se despediram, sabendo que não mais se veriam. Não vivo o natal, não me faz falta. Recebo inteira esta mão que para a minha se estende e aperto, contraditório e frágil, o homem que nela se dá. Essa alegria basta-me.

Jorge Roque
Nu contra Nu (Averno, 2014)

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