sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

brincadeira

Meu jovem heideggeriano,
um dia as palavras desistem
e as coisas to dirão, não é?
Por agora, compras os teus
bilhetes para o concerto
que não dá, nem no cabo, nem aqui,
na morrinha desta antevisão.

Faz de mim o teu maço de papéis,
reescreve a tua história a copos de leite,
dá-me dessa água tão limpa
que se esquece por todos,
por mim, pela bica que me diz
que estás cansado, tonto dos almaços.

Meu heideggeriano, já não assim tão jovem,
perdemos tudo e ainda conversamos.
Argumentos: nem mais, nem menos um tostão.
Querias telenovelas? Nem eu, nem
tu, está claro, mas a manha é que
não há quem nos diga 
o que fazer nos entretantos.

Meu jovem, aperta-me a mão.
Toma este cigarro que te enrolo
sem mais que fastio e procissão.
A malha vai de chofre, somos calmos
e claros, nem como nem porquê:
olha adiante, como vai bonita além 
a menina do teu cinema de autor.

Olha cá, o tu cá tu lá é só meu,
não entres cá com essa eurovisão.
Se o que queres são trilhas de esquerda,
a matança do pai pela mão,
então digo-te já que não quero,
que faço birra de copos,
que me enterro cotovelos adentro,
emperro no que desfaço, confundo-me,
e nem com isto te peço perdão.

Meu jovem, tão heidegger, tão ai,
fizemos da miragem o mesmo osso exótico,
lâmina deixada nos pulmões pelo doutor 
sussurrando erótico na contagem dos sonhos.
Que queres agora que te diga
senão que estou contigo,
olhos fixos no mesmo desnível? Olha que 
faz manhã tola, e não é bem a daquele autor.

Larga a tinta, a caneta a ocidente,
ouviste? Não temos nada em comum
senão esta jigajoga do entredentes.
eu sou o teu saco, tu a minha derrota,
fomos embalados no mesmo boteco vergonhoso.

Conversas, ou dizes que sabes?
Sabes, meu jovem ai,
do heidegger li pouco
e de ti, pouco ou nada sei.
Mas se continuares nesse vai-e-vem,
eu ouvir-te-ei até os ossos me caírem,
e daí nada de mal ao mundo vem,
muito pelo contrário: soltam-se
os lobos da universidade,
os teus colegas, os que têm fome, gente
de que foges, daquela lá do Cacém.

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