domingo, 8 de junho de 2014

   Dias sucederam-se a dias de amargura e de desejos, de incoerência e de dor desordenada e estéril. Na minha miséria não chegava a compreender que, sendo assim, o casamento é abjecto, é o hálito da prostituição - com actos ignóbeis e previstos. Impossível que ela saísse pura de semelhantes práticas (e talvez eu desejasse que saísse impura); impossível que a sua alma extraordinária resistisse a esta coabitação com um ser com mais chagas do que Lázaro... E no entanto parece alheada. A seu lado não sei que figura maravilhosa a defende e protege... Cala-se. E o seu silêncio é pior - o silêncio é sempre pior. Toma atitudes de mártir e fica diante de mim calada e triste. Enfurecem-me estes seres calados e passivos, estas criaturas que se obstinam em não se queixar - como se ocultassem coisas extraordinárias... E isto chega a obsessão. É no silêncio que se criam os nossos melhores e piores pensamentos. Queira ou não queira tenho de pensar no que ela deseja - de viver, tendo ao meu lado esta mulher que se finge mártir, que parece isolada e sem defesa e que está defendida por uma muralha maior do que a da China, que não consigo transpor. Quais são os seus pensamentos? Contra mim? Se ao menos fossem contra mim!... Não, o que ela quer é salvar-me a todo o custo! É só a minha alma que me pede, só! - e o que lhe leio no olhar que me irrita e faz gritar de desespero, é piedade e amor...

Raul Brandão
in O pobre de pedir (Editorial Comunicação).

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