segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Queimei os dedos todos na
volta de uma ou outra memória,
vasculhando num livro escuro
a voz que me prometera.
Já tu, que tanto disseste, não foste
sequer uma segunda educação.


O espelho da casa, de que levaste metade:
copiou-me todos os gestos, segredos.
Escrevo, tristeza e papel quadriculado.
Se levantar os olhos, terei
a sombra corcunda, as orelhas de burro:
nunca verás palácios nos sulcos da parede.
Vira a página, faz um verso igual ao outro.
Entende: não há cura para este consolo.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

UM BÁRBARO EM CASA,
de Frederico Pedreira,
com capa de Luís Henriques
[300 exemplares, 160 pp., 10€]

pedidos:edlinguamorta@gmail.com

domingo, 6 de julho de 2014

Os cães dormem finissimamente. Vejo-os resumidos em
torno do chão, peneirando serenos as dunas do sono. Já
eu, reproduzo a insónia de uma forma quase fabril: de hora
em hora, de noite em noite. É a metalurgia de algo que não
funde, eu e a fornalha das minhas burlas, dos meus 
prejuízos. Entendo que cada homem, superando o receio
de excomunhão, devolva o seu corpo à indiscrição. Corpo
no mundo como rusga. Revirar tudo, farejar como os cães
a flor absurda do prazer.

Vasco Gato
in Rusga (Trama, 2010)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Mas contenha, Paula, a tua gula: você que, além de liberada e praticada, é também versada nas ciências ocultas dos tempos modernos, não vá lambuzar apressadamente o dedo na consciência das coisas; não fiz a revelação como quem te serve à mesa, não é um convite fecundo a interpretações que te faço, nem minha vida está pedindo esse desperdício. Quero antes lembrar o que minha mãe te dizia quando você, ao cruzar com ela, e "só pra tirar um sarro", perguntava maliciosamente por mim, te sugerindo eu agora a mesma prudência, se acaso amanhã teus amigos quiserem saber a meu respeito. Você pode dispensar "a ridícula solenidade da velha", mas não dispense o seu irrepreensível comedimento, responda como ela invariavelmente te te respondia: "Não conheço esse senhor".

Raduan Nassar
in Menina a Caminho e outros textos (Cotovia, 2000).

domingo, 8 de junho de 2014

   Dias sucederam-se a dias de amargura e de desejos, de incoerência e de dor desordenada e estéril. Na minha miséria não chegava a compreender que, sendo assim, o casamento é abjecto, é o hálito da prostituição - com actos ignóbeis e previstos. Impossível que ela saísse pura de semelhantes práticas (e talvez eu desejasse que saísse impura); impossível que a sua alma extraordinária resistisse a esta coabitação com um ser com mais chagas do que Lázaro... E no entanto parece alheada. A seu lado não sei que figura maravilhosa a defende e protege... Cala-se. E o seu silêncio é pior - o silêncio é sempre pior. Toma atitudes de mártir e fica diante de mim calada e triste. Enfurecem-me estes seres calados e passivos, estas criaturas que se obstinam em não se queixar - como se ocultassem coisas extraordinárias... E isto chega a obsessão. É no silêncio que se criam os nossos melhores e piores pensamentos. Queira ou não queira tenho de pensar no que ela deseja - de viver, tendo ao meu lado esta mulher que se finge mártir, que parece isolada e sem defesa e que está defendida por uma muralha maior do que a da China, que não consigo transpor. Quais são os seus pensamentos? Contra mim? Se ao menos fossem contra mim!... Não, o que ela quer é salvar-me a todo o custo! É só a minha alma que me pede, só! - e o que lhe leio no olhar que me irrita e faz gritar de desespero, é piedade e amor...

Raul Brandão
in O pobre de pedir (Editorial Comunicação).

segunda-feira, 26 de maio de 2014

The last remark of On Certainty was written on 27 April, the day before Wittgenstein finally lost consciousness. The day before that was his sixty-second birthday. He knew it would be his last. When Mrs Bevan presented him an electric blanket, saying as she gave it to him: 'Many happy returns', he stared hard at her and replied: 'There will be no returns.' He was taken violently ill the next night, after he and Mrs Bevan had returned from their nightly stroll to the pub. When told by Dr. Bevan that he would live only a few more days, he exclaimed 'Good!' Mrs Bevan stayed with him the night of the 28th, and told him that his close friends in England would be coming the next day. Before losing consciousness he said to her: 'Tell them I've had a wonderful life.'




Ray Monk, in Ludwig Wittgenstein: The Duty of Genious (London: Vintage, 1991.)

domingo, 25 de maio de 2014

11

Sou um pai, dizes
pondo nos pés sapatos grandes.

Sonhas isso de ser homem
e cansas-te. Sem mágoa voltas
realmente à infância.


António Osório
in A Ignorância da Morte (ed. Autor), 1978.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A EMBOSCADA

Prefere presas isoladas o silêncio
e ela terá talvez batido a porta ao jeito
crepuscular dos sinais anunciadores
de solidões recentes: corre agora sob
o soalho paralelo às minhas andanças
nocturnas na barriga vazia dos móveis
ou nas máquinas da cozinha quando sem
sede me levanto e vou à procura de água;

e certa vez pareceu-me emboscado no
coração do relógio da sala: tinha
que ser ele: tiquetaqueava e eu nunca
na vida ouvira aquilo tiquetaquear.


António Gregório
in American Scientist (Quasi Edições).

terça-feira, 11 de março de 2014

Já te abandono, e reconheço ao mundo
que te inventei um dia por brinquedo.
De não te conhecer fiz o sentido
que em memória nenhuma se contém;
deixei que fossem falsas as palavras
e que feitas de chamas me adornassem,
tradicionais, as penas do pavão.
Sinto-me bem agora, um pouco triste
de te saber contente a uma esquina
qualquer, do antigo mundo humano;
medo, talvez, te foi de bom conselho.
Grandes nomes que dei ao que senti,
soantes rimas em que amei, te deixo
para que ninguém saiba o que menti.
 

António Franco Alexandre
in Duende (Assírio & Alvim)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Pão e circo
 
Pão e circo chegariam para que o engano jamais se desfizesse. Acontece que o pão começa a faltar e o circo já não é olhado com os mesmos olhos. É afinal a nossa esperança. A esperança no homem que se procura. A esperança na falta, no gesto cego da falta, na força bruta do acto. Foi sempre esse o pão, aquele que fazemos.
 
*
 
O escuro
 
O mundo não se rege por um princípio de racionalidade, qualquer que seja a sua evidência: sentido, valor, virtude ou justiça. O mundo rege-se por um princípio de poder. De nada te serve a luz que apontas ao escuro caminho. O que tentas iluminar, apenas o escuro revela.
 
 
Jorge Roque
in Cão Celeste n.º 4, Lisboa, Novembro de 2013.