domingo, 22 de dezembro de 2013

Demora-te sobre a pele do espelho,
(Teu corpo por empréstimo)
Ignora a idade
Que à porta deixaste.
Não olhes a ferida em cave de pé alto
Onde tudo está:
Água de estrelas, palavras de gesso;
E na aragem rente ao chão outro desconcerto,
Treva imensa, outro género de luz.



Nunes da Rocha
in Óculos sujos, fígado gordo (&etc).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

SCHUBERTIANA

I

Ao anoitecer, num lugar dos arredores de Nova Iorque, um miradoiro do qual com um só olhar é possível avistar as casas de oito milhões de pessoas.
De longe, vista assim de lado, a megacidade é um cintilante montão de edifícios, uma galáxia em espiral.
Dentro dela põem-se cafés nos balcões, montras mendigam a transeuntes, miríades de pares de sapatos não deixam o menor rasto.
Íngremes escadas de salvação, ascensores em permanente função, atrás de portas com fechaduras de alta segurança, um marulhar constante de vozes.
Corpos prostrados meio adormecidos nas carruagens do metro, essas catacumbas itinerantes.
Também sei - sem base em dados - que neste mesmo instante se toca Schubert, algures num quarto ao longe, e que para alguém essas notas são mais reais do que qualquer outra coisa.


Tomas Tranströmer
in 50 Poemas (Relógio d´Água).
I
 
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
         acotovelam-se no cais.

II
 
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
          é cosido em silêncio.
 

Tomas Tranströmer
in 50 Poemas (Relógio d'Água).

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas

fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos

encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.


António Franco Alexandre
in Poemas (Assírio & Alvim).

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

sob um chapéu de largas listas verdes e azuis
conto, porque vi, a mais história da guerra portuguesa:
um rapaz levando o seu amigo, com menos uma perna, para o
mar, sob a areia que  o vento levemente erguia.

Escrevo um jarro de anémonas uma gravata de riscas
uns grossos aros de tartaruga.
Escrevo tudo isto em defesa do figurativo? Hockney e Kitaj
trazidos na capa da revista, não vou dizer qual é, dois corpos de
homem, um nu, outro apenas de camisola de alças peúgas negras
sapatilhas, ainda uns óculos a correia de um relógio
o sorriso sobre a tela branca.

Trazia comigo uma alegria que não morria e
vinha de haver contra o mar
as águas das piscinas,
os retratos de todos os amigos.
Flaubert Auden Isherwood Cavafy ou apenas juventude.


João Miguel Fernandes Jorge
in Obra Poética, Vol.3, Presença.