segunda-feira, 25 de novembro de 2013

6.

morriam longas cobras de água verde a estibordo dos lábios
e o nácar dos dentes fendia a geada
navegávamos sem bússola um dentro do outro
com o peso das tristes asas do albatroz no coração

passávamos os dias espremendo polposos frutos
beijos nos músculos tatuados de pin-ups dolorosas virgens
araras panteras brancas mapas geometrias misteriosas
riscavam-se os punhos com silêncios inexplicáveis
não me lembro se alguém gritou e morreu
percorríamos o areal
onde esquecemos os desejos dados-à-costa

a pouco e pouco habituei-me à solidão deste quadrante
sem destino
o fogo devorou as esperanças duma possível felicidade
espero com as aves uma mudança brusca de tempo
ou o regresso às simples profecias

mas ainda estou vivo... acordado
para rasgar o calor tremendo das cinzas
deixo a pouca vida que me resta
emaranhar-se nas quentes lágrimas das ilhas


Al Berto
in O Medo, Assírio & Alvim.

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