quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O CRIMINOSO DA MODA


Ogni tempo ha il suo fascismo.
                    PRIMO LEVI


O criminoso não é
a soldadesca de Hitler
agora, o criminoso

da moda seduz: à cama
leva nos braços a vítima,
ameaça a céu aberto

sob o sol primaveril.
Primeiro beija, de Judas
aperfeiçoou a técnica

do cânone, truques novos
tem também de malas-artes.
Lança minhoca, sorri

como quem coita não quer,
tudo faz de olhos cerrados
— só depois os cães açula.

José António Almeida
in Obsessão (&etc).

terça-feira, 26 de novembro de 2013

IV

Fora da natureza, meu corpo nunca mais
Assumirá a forma das coisas naturais,
Mas sim uma das formas que criam os ourives
Gregos, com esmalte de ouro e ouro martelado,
Para manter um imperador sonolento acordado;
Ou para, sobre um ramo de ouro, entoar cantos
Que falem aos senhores e damas de Bizâncio
Do que passou, ou está a passar, ou há-de vir.


IV
Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.



W.B. Yeats
in As Escadas Não Têm Degraus (Joaquim Manuel Magalhães, Maria Leonor Telles, trad.), Cotovia.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

6.

morriam longas cobras de água verde a estibordo dos lábios
e o nácar dos dentes fendia a geada
navegávamos sem bússola um dentro do outro
com o peso das tristes asas do albatroz no coração

passávamos os dias espremendo polposos frutos
beijos nos músculos tatuados de pin-ups dolorosas virgens
araras panteras brancas mapas geometrias misteriosas
riscavam-se os punhos com silêncios inexplicáveis
não me lembro se alguém gritou e morreu
percorríamos o areal
onde esquecemos os desejos dados-à-costa

a pouco e pouco habituei-me à solidão deste quadrante
sem destino
o fogo devorou as esperanças duma possível felicidade
espero com as aves uma mudança brusca de tempo
ou o regresso às simples profecias

mas ainda estou vivo... acordado
para rasgar o calor tremendo das cinzas
deixo a pouca vida que me resta
emaranhar-se nas quentes lágrimas das ilhas


Al Berto
in O Medo, Assírio & Alvim.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

[...]
 
M.S.Lourenço: Eu sentava-me diante dela [G. E. M. Anscombe] com o meu caderno e os meus livros; se eu tinha preparado, por exemplo, alguns problemas e dificuldades sobre proposições elementares, a sessão começava com um longo silêncio, durante o qual eu às vezes recitava para dentro o meu veni creator spiritus, mentes tuorum visita e ao fim da qual começava um diálogo do seguinte género:
 
Ela: Are you thinking?
Eu: Yes.

(Novo silêncio.)
Ela: Intransitive?
Eu: No.

(Novo silêncio.)
Ela: What about then?
Eu: Elementary propositions.

(Silêncio mais prolongado).
Ela: Give me an example of one.
Eu: I can’t.
Ela: Very Good.

.....
 
in  A Teoria do Programa. Uma homenagem a Maria de Lourdes Ferraz e a M. S. Lourenço; A. M. Feijó & M. Tamen (eds.), Lisboa: Programa em Teoria da Literatura, 2007.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Não mais, coração,
Atravesses a passadeira.
É muito o trânsito
Quando frívolo,
De sístole em desconcerto
Caminhas.
Segue pelas ruas estreitas
E, sob as sardinheiras,
Confia à arritmia
A surpresa que bate
Cada um dos dias.


*


Sou também «poeta obscuro»
Por meticulosa embriaguez
Num bairro moderno.
Se a vertical me falha
É por hesitação
Entre a vontade histórica
De morrer
E a reincarnação no dia seguinte.
Macerado veneno ilumina
A minha boca,
Sustenta palavras desiguais
Entre o último
E primeiro comboio.
Se me inclino sobre o poema,
Desaparece o cometa.


Nunes da Rocha
in Óculos sujos, fígado gordo (&etc).

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

I PUT A SPELL ON YOU

Tu não sabias de que lugar eu vinha
nem quem me enviava. As máquinas pareciam transbordar
sobre os campos, disseminando a noite
em plena marcha. E eu estava tão cansado quando me sentei
ao teu lado. Generosamente pousaste a tua mão.


Os dias por vir jaziam amordaçados
debaixo da terra, nada fazia prever as cartas
que te escreveria. Algumas levavam fotografias, eu a olhar
para ti no ar desfocado. Mas as notícias que te dava
em mau inglês eram omissas, nunca respondi às perguntas
que me fizeste. Acho que o desalento já estava deitado
na cama, a própria parede parecia
muito doente.



Rui Pires Cabral
in Música antológica & onze cidades (Editorial Presença)

domingo, 17 de novembro de 2013

COM O ESPÍRITO DA CASA 

Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando
o teu último banho cá em casa. Ficaram coisas que
te pertencem e que não sei se deva guardar,
a saber: um candeeiro, um desenho, uma fotografia.
Outras coisas ficaram
alguns discos e já não sei que livro. Não ferem
tanto.
Há ainda a memória da pele, o amarelo dos olhos e
algumas expressões do teu português falado.
Mas estas últimas coisas já se confundem com o
espírito da casa, quero dizer-te com a poeira da
casa.


João Miguel Fernandes Jorge
in A Jornada de Cristóvão De Távora Primeira Parte, Presença.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013



A FORÇA DE ESPERAR

Mais vale falar para confessar o meu quinhão de sorte:
Não tenho nada de meu, tudo me tiraram
E os caminhos onde acabarei morto
Ando por eles como um escravo de cabeça baixa;
De meu só tenho o que sofro:
Lágrimas, suores e o mais penoso esforço.
Tudo somado sou um objecto de piedade
Se não for de vergonha aos olhos do mundo dos fortes.

Como não importa quem tenho uma vontade
Desvairada de comer e de beber;
Quanto a dormir sinto uma nostalgia ardente:
Como uma besta, num interminável quente.
Durmo pouco ou nada, folguedos não são comigo,
Nunca fodo uma mulher bonita;
E, todavia, o meu coração, vazio, vai sempre a direito,
Apesar da dor, nunca pára para parar.

Poderia ter rido, ficado tonto com o meu capricho
A aurora em mim podia escavar seu ninho
E resplandecer, subtil e protectora,
Sobre os meus semelhantes que teriam florido.
Não tenhais piedade, se a vossa escolha
É serdes estúpidos e sem justiça:
O dia virá em que serei
Um dos construtores de um edifício vivo,

A multidão imensa em que o homem é um amigo.


Paul Éluard

in Últimos Poemas de Amor (Maria Gabriela Llansol, trad.), Relógio D'Água. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Não há baladeiro audaz que por estes dias não arraste atrás de si a sua tediosa oficina poética e insista na evidência das suas chagas profissionais perante audiências de que a vocação de São Tomé desapareceu quase por completo.


Miguel Tamen
in Artigos Portugueses (Assírio & Alvim).