quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Podei as sardinheiras de seis anos.
A meda dos ramos no telheiro
secou ao vagar de março,
enredou-se nos torcidos nós

aí teceram as aranhas, uma gata
pariu uma ninhada
e as milhariças negras e
castanhas com os paus de musgo

começaram por buscar insectos,
descobriram lugares aveludados,
tentaram esconder um ninho.

Línguas de ar sanguinolento
correm nos sulcos calcinados.
Nada. Nada quer dizer.


Joaquim Manuel Magalhães
in Segredos, sebes, aluviões (Editorial Presença).

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A UM JOVEM POETA

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina
in Poesia Reunida, Assírio & Alvim

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

III
 
É fácil ver ainda nos cadernos escolares, no espólio que as razões de família acautelaram em arcas protectoras, a cólera das cores, a impaciência dos traços que rasgam o papel: imaginava dunas ocres, chuva a desabar num ímpeto castanho, animais de chifres encarnados resistindo à matança, lobisomens com a violência azul dos cavadores a levantar a enxada, sóis estilhaçados, como se a luz batesse nas janelas e a criança as partisse.

CASA

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

PAPEL
 
Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto, vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.

PORTA

A porta que se fecha
inesperadamente na distância
e assusta o romancista
que descreve o seu quarto de criança
(é difícil dizer
se os velhos arquitectos
que punham tanto amor
na construção do quarto
teriam ponderado com rigor
a escala deste som
e o espaço coagulado
ao fundo do corredor)
a porta que se fecha no passado
sobressaltando a escrita e o escritor.

PRAIAS
 
Dorme, flutua numa espécie de lago. A respiração dos seios empurra contra as paredes do quarto, em ondas lentas, o meu corpo afogado. Não consigo dormir.
Esperarei toda a noite nessas praias de cal, desertas, verticais.


Carlos de Oliveira
in Sobre o Lado Esquerdo (Trabalho Poético), Livraria Sá da Costa Editora.
O HOSPITAL

Há um ano, apaixonei-me pela funcionalidade de uma ala
De hospital: uma fila de compartimentos quadrados,
Betão, lavatórios - o desespero de qualquer amante de arte -,

Para não falar do modo como o fulano na cama ao lado ressonava.
Mas nada o amor interdita,
O comum, o banal, podem o calor dela conhecer.
O corredor conduzia a uma escadaria e, por baixo,
Ficava a imensa aventura de um pátio com gravilha.

É isto que o amor faz às coisas: a Ponte de Rialto,
O portão principal que o peso de uma carrinha amolgou,
O assento nas traseiras de uma cabana que era um foco de luz.
Nomear estas coisas é o acto de amor e a sua promessa;
Já que nos cumpre registar o mistério do amor sem desconversar,
Resgatar do tempo o passional transitório.


Patrick Kavanagh
in Estradas Secundárias: Doze Poetas Irlandeses (Hugo Pinto Santos, trad.), Artefacto.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

VÁRIAS CURIOSIDADES AVULSAS

É curioso como
os olhos se acendem ou apagam
independentemente de estarem abertos ou não.

*

É curioso como
uma coisa já de si simples
por amor da clareza fez por tornar-se
ainda mais simples,
cada dia um pouco mais simples,
a ponto de hoje passar aos olhos de todos
por algo tão estranho e complexo
e escandaloso
(como uma vela diante da perna de uma mulher,
como um sal tão salino que consome a colher).

*

É curioso como
Deus para uns existe, para outros não,
para si próprio não sabemos.

*

É curioso como,
num concerto,
dum violino dizemos que ressoa,
dum velho, que ressona:
quando ambos só deitam cá pra fora
o que lhes vai na alma por via sonora.

*

É curioso como
os mercados se mostram apreensivos, apreensivos.
Eu julgava que os mercados eram sítios
onde se compra fruta.
Será que a melancia
também anda apreensiva? Será que
só o diospiro consegue guardar a serenidade
no seu coração tão vermelho?
Depois me explicaram que os mercados são sítios
onde se compra títulos, que é proveitoso adquiri-los.
Alcancei que adquirir um título é deveras uma coisa gloriosa,
logo decidi que sim e qual:

A Ilustre Casa Ramires.

Sendo eu detentor deste título
(a notariar terça que vem)
aplicá-lo-ei ao que bem entender
e já está decidido que
A Ilustre Casa Ramires
será o novo nome das minhas

botas de inverno.


José Luís Costa
in Da Madragoa a Meca, &etc.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

XVII - O QUARTO

Neste quarto que me priva
da voz, visão e ouvido do mundo,
entre renúncias, sobrevive
a minha existência;
o que será uma memória
irrenunciável do vazio,
um trajecto deserto,
sem temperatura, até um desejo
de magoada serenidade.
De uma idade terminada.


Rui Miguel Ribeiro
in XX Dias, Averno.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Assisto (assistimos os dois) em silêncio à ressurreição das florestas, também silenciosa. Ralanti desfocado (imagem por imagem) e contudo nítido no conjunto. Examino a ideia (é-me imposta de fora: não fui eu a elaborá-la) duma catástrofe serena, planeada, às avessas, e isso assusta-me ainda mais. Exacerbando sentimentos comuns (espanto, medo), mas inserindo-se numa experiência nova (signos doutra lógica e doutra realidade), a ideia insinua que estou a viver por conta própria e a sonhar por conta de alguém.
 

Carlos de Oliveira
in Finisterra: Paisagem e Povoamento, Assírio & Alvim.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

JOÃO

nunca um engravatado nervoso, tímido
funcionário do violão ou não
cometeu tanta extravagância e beleza


outros engravatados
de loquela, majestade e mestria, se acumularam
na bossa nova, na música popular (o abraço
merecido ao Bonfá, que toca agora) - não foi
ninguém porém tão


endemoninhado, precioso, preciosista
quanto João Gilberto
abandonando às vezes plateias rumorosas
turbulentas


néscia e frondosa é a juventude, sobretudo tão
sem peia, desengravatada


João some no palco, se atrapalha
na cortina


não encontra saída para esta insolência mal sincopada
o caminho de volta para a Copacabana interior
ou a delonga incessante em apartamento sobre o mar
inundado de luz - de luz própria -


e por ali, no violão gago (tartamudos também estes versos)
ser plateia de si mesmo



Miguel-Manso
in Tojo, Relógio D' Água.


Stan Getz/João Gilberto - Pra machucar meu coração
Este trabalho de perder. Diz-se, e muito: a escrita é isto, é aquilo. E depois organizam-se festas, atribuem-se corações, arranja-se um parágrafo a mais para a poesia no currículo. Hoje, por exemplo, conseguiu-se enfiar mais esta palavra. Envia-se q.b. à “tradição”, mas com a vantagem de a “renovar”. Um pedacinho de rúcula colocado no prato por uma pata de porco. E durante o dia anda-se calmo, discute-se mais um bocadinho: “sim, mas não te esqueças do que X disse sobre isso.” E no autocarro vai-se feliz, anota-se no caderno preto: “não esquecer de referir isto a Y.” Não, não, meu querido, você é que é poeta!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

You got a lotta nerve
To say you are my friend
When I was down
You just stood there grinning


You got a lotta nerve
To say you got a helping hand to lend
You just want to be on
The side that’s winning


You say I let you down
You know it’s not like that

If you’re so hurt
Why then don’t you show it

You say you lost your faith
But that’s not where it’s at
You had no faith to lose
And you know it


I know the reason
That you talk behind my back
I used to be among the crowd
You’re in with


Do you take me for such a fool
To think I’d make contact

With the one who tries to hide
What he don’t know to begin with


You see me on the street
You always act surprised
You say, “How are you?” “Good luck”
But you don’t mean it


When you know as well as me
You’d rather see me paralyzed
Why don’t you just come out once
And scream it


No, I do not feel that good
When I see the heartbreaks you embrace
If I was a master thief
Perhaps I’d rob them


And now I know you’re dissatisfied
With your position and your place
Don’t you understand
It’s not my problem


I wish that for just one time
You could stand inside my shoes
And just for that one moment
I could be you


Yes, I wish that for just one time
You could stand inside my shoes
You’d know what a drag it is
To see you


Bob Dylan - Positively 4th Street

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

SANTO TIRSO

à maneira de Larkin


Ao mostrar-me o colégio, vinte anos passados,
o director conduziu-me ao meu antigo quarto.
Emocionou-me ele lembrar-se melhor do que eu.
Lembrava-me, mais que do meu, do quarto vizinho.
E de velhas conversas às janelas geminadas.
Mas passado já o tempo dos interrogatórios,
o director não suspeitou das minhas recordações.
E por cortesia para com o antigo aluno,
antes de abrir a porta, para evitar o choque,
avisou-me que tinham modificado o quarto.
Eu não tive possibilidade de dissimular
uma expressão alegre que ele não entendeu.
Tinham derrubado essa parede que nos separava,
e os nossos quartos são agora o mesmo quarto.

José António Almeida
in As Escadas não têm Degraus, vol. 2, Cotovia.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

1.

Não sei adivinhar as tempestades.
No fim de uma estação as borboletas morrem
e o vento quebra nas varandas altas.
É por trás dos vidros que então nos defendemos
de todas as surpresas: morremos de antemão.
E sob a trovoada
assombra-nos o voo dos pássaros à chuva.


5.

Desencanto a voz. Uma atenção miúda
faz daquele arbusto um feixe de absurdos.
Narinas deste cão centrando um mundo
e duas abelhas ali ao mesmo tempo:
é isto que agora só interessa – atravessar
o jardim pelo meio da cidade
muito calado para entrar em casa.


6.

A chuva alterou toda a paisagem.
Novos charcos e folhas mais brilhantes
um halo que custa a desvelar.
São guarda-chuvas o que os homens abrem
cafés despenteados por rumor de gabardinas.

Mesmo com sapatos sou um cão à chuva
e tenho os pés molhados como queria.


23.

Viciei os olhos em pequenas coisas
desviei-os para longe e estendi a mão
na direcção de cinzas. O mundo desfaz-se
de pequenas coisas em pequenas coisas
os olhos viciados numa laçada
de irrealidade - ah pudesse haver sequer
uma borboleta cega chamando nas vidraças.



Carlos Poças Falcão
in Arte Nenhuma (Poesia - 1987-2012), Opera Omnia.