segunda-feira, 23 de setembro de 2013

NUMA PONTE, SOBRE AS ÁGUAS


O pai assim doente
está sempre a atravessar
a grande ponte
Diz coisas como
é mais um dia fora da vida
e de repente a luz dourada

Vai repetindo os nomes
das vidas que perdeu
entre ventos, o trânsito que não pára
paisagens do mundo tão suspenso

Mostra a noite em seu redor
e recolhe o fio que prende
a dispersa coroa de pássaros

Luzes e luzes nascendo das camadas
de breu acumulado, um ar dolorido
que insiste, aqui, nestes pulmões
as luzes que chegam de um mesmo fundo
subitamente mais iluminado

Que velhas frases rodopiem sobre as águas
cruzadas e correndo de novo
entretecidas, precipitadas
quase para sempre

O pai não sabe o enredo que viveu
mas é apenas tudo o que enfim se retoma
um pouco tarde, longamente segredando
o seu vivo esquecimento
assim numa ponte, sobre as águas

José Manuel Teixeira da Silva
in O Lugar Que Muda o Lugar, Língua Morta

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