segunda-feira, 30 de setembro de 2013

    [...] Vamos criando distâncias pela vida fora, vamos morrendo uns para os outros. E também vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons-dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: Ó pá, inda és vivo?) quando me vêem respirando e mexendo dentro da minha farpela pobre. Dormi mais de dez anos com o cadáver da minha mulher e na mesma cama. Jamais nos conhecemos, fomos sempre dois mortos um para o outro. São coisas que acontecem.
 
    Deito-me na minha cama, sozinho. O óculo de meu defunto pai? tio? aponta na janela para um destino incerto, Norte ou Sul, Norte e Sul, tanto faz. O teodolito... não falemos em tais fantasias. Estou agora muito cansado. Enchi vinte e cinco páginas que foram as que me deram para encher. Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer. Escrevo como o Hemingway - à tabela: tantas páginas, tantas mil palavras, tantos tostões. Eis aí um morto simpático, o Hemingway, suicida carregado de glória, um milionário-suicida. Basta de mortandade, porém. Matei mais gente que a Santa Inquisição. Estou na verdade cansado.
 
   A Umbelina ajoelha à beira da minha cama. Passo a mão devagar por aquela máscara vazia, pela caveira esburacada, pelos seus cabelos, farripas podres esverdeadas a despegarem-se do crânio, acaricio-a ternamente suavemente até eu próprio perder o medo àquilo. O medo do sono. O medo do esquecimento. E então, enquanto continuo a dormir, ela acaba ternamente suavemente com a sua pata ossuda suavemente de me bater a punheta. Como se embalasse um filho. Ou desse o último aperto de mão, pela última vez se despedisse de um condenado.

Luiz Pacheco
in 'O teodolito' (Exercícios de Estilo), Editorial Estampa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

[...] corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de 'história'; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um - essa questãozinha que vive te fundindo a cuca - o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co' a mão amiga dos assassinos; aliás, teus altíssimos níveis de aspiração, tuas veleidades tolas de perfeccionista tinham mesmo de dar nisso: no papo autoritário dum reles iconoclasta - [...] 
 
Raduan Nassar
in Um Copo de Cólera (Relógio D' Água)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

NUMA PONTE, SOBRE AS ÁGUAS


O pai assim doente
está sempre a atravessar
a grande ponte
Diz coisas como
é mais um dia fora da vida
e de repente a luz dourada

Vai repetindo os nomes
das vidas que perdeu
entre ventos, o trânsito que não pára
paisagens do mundo tão suspenso

Mostra a noite em seu redor
e recolhe o fio que prende
a dispersa coroa de pássaros

Luzes e luzes nascendo das camadas
de breu acumulado, um ar dolorido
que insiste, aqui, nestes pulmões
as luzes que chegam de um mesmo fundo
subitamente mais iluminado

Que velhas frases rodopiem sobre as águas
cruzadas e correndo de novo
entretecidas, precipitadas
quase para sempre

O pai não sabe o enredo que viveu
mas é apenas tudo o que enfim se retoma
um pouco tarde, longamente segredando
o seu vivo esquecimento
assim numa ponte, sobre as águas

José Manuel Teixeira da Silva
in O Lugar Que Muda o Lugar, Língua Morta