terça-feira, 2 de julho de 2013

renda

A Françoise haveria de me dizer, mostrando-me os cadernos roídos como madeira onde entrou caruncho: ‘Está tudo comido pela traça, olhe que pena, aquele pedaço de página parece uma renda’; e, examinando tudo aquilo com olhos de alfaiate: ‘Não acredito que possa ter conserto, está perdido. Mas que pena, se calhar são as suas melhores ideias. Como se diz em Combray, não há peleiros que saibam tanto de peles como as traças. Escolhem sempre os melhores tecidos.
 
(...) [T]rabalharia junto dela, e quase como ela (pelo menos como ela trabalhava dantes, ela que, agora tão velha, quase não via nada), visto que, prendendo aqui e ali com um alfinete uma folha suplementar, iria construindo o meu livro, não digo ambiciosamente como uma catedral, mas só e apenas como um vestido. Quando não tivesse ao pé de mim toda a minha papelada, como dizia a Françoise, e me faltasse justamente aquele papel de que precisava, a Françoise compreenderia bem o meu enervamento, ela que dizia sempre que não podia coser se não tinha linha do número conveniente e os botões necessários.

in Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Reencontrado (Pedro Tamen, trad.), Lisboa: Relógio d'Água

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