quarta-feira, 17 de julho de 2013

pés descalços

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Kleist escreveu algures que aquilo que o poeta mais gostaria de ser capaz de fazer seria comunicar pensamentos sem recorrer a palavras. (Que estranha confissão.)
 
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O inexprimível (o que considero misterioso e não sou capaz de exprimir) talvez seja o pano-de-fundo a partir do qual recebe sentido seja o que for que eu possa exprimir.
 
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Nunca consegui, senão pela metade, exprimir o que quero exprimir. Na realidade, talvez nem tanto, apenas um décimo. Isso ainda tem algum significado. Muitas vezes, a minha escrita não é mais do que uma «gaguez».
 
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Por vezes, parece-me que já filosofo com gengivas desdentadas e que olho o falar sem dentes como a maneira correcta de falar, como a maneira que mais vale a pena. Consigo detectar algo de semelhante em Kraus. Em vez de o reconhecer como uma deterioração.
 
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Se penso num assunto apenas para comigo e sem uma intenção de escrever um livro, saltito à sua volta; é a única maneira de pensar que é em mim natural. Forçar os meus pensamentos a uma sequência ordenada é para mim um tormento. Valerá sequer a pena tentar, nestas circunstâncias, fazê-lo?
Desperdiço uma quantidade indescritível de esforço na organização dos meus pensamentos, que talvez não tenha qualquer valor.
 
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Shakespeare e o sonho. Um sonho é inteiramente falso, absurdo, composto e, todavia, é ao mesmo tempo inteiramente verdadeiro: elaborado desta estranha maneira provoca uma impressão. Porquê? Não sei. E se Shakespeare é grande, como se diz que é, então deve ser possível dizer a seu respeito: está tudo mal, as coisas não são assim - e ao mesmo tempo, contudo, está tudo inteiramente certo de acordo com uma lei que lhe é própria.
As coisas também se poderiam pôr nestes termos: se Shakespeare é grande, a sua grandeza revela-se apenas na colecção completa das suas peças, que criam a sua própria linguagem e o seu próprio mundo. Por outras palavras, ele é de todo irrealista. (Como um sonho).
 
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Nada podes escrever sobre ti que seja mais verdadeiro do que tu próprio és: eis a diferença entre escrever sobre ti próprio e escrever sobre objectos externos. Cada um escreve sobre si próprio de acordo com a altura a que se encontra. Não te encontras sobre umas andas ou numa escada, mas sobre os teus pés descalços.
 
 
Ludwig Wittgenstein
in Cultura e Valor (Jorge Mendes, trad.), edições 70.

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