domingo, 21 de julho de 2013

O MOTIVO PARA A METÁFORA


No outono gostamos de estar debaixo das árvores
Por uma semi-morte que há em tudo.
O vento move-se como um coxo entre a folhagem
E repete palavras sem sentido.


Assim, também, fomos felizes na primavera,
Pelas meias cores das coisas às metades,
O céu um pouco mais brilhante, nuvens derretendo,
O simples pássaro, a lua obscura -


A lua obscura iluminando um mundo obscuro
De coisas que nunca seriam bem expressas
Onde tu próprio nunca foste bem tu mesmo
E não quiseste ou tiveste que ser,


Desejando a exaltante mudança:
O motivo para a metáfora retraindo-se
Ao peso do meio-dia inicial,
O A B C do ser,


O rubro humor, o martelar
Do vermelho e do azul, o som áspero -
Em vez de sugestões, o aço - o clarão,
O arrogante e vital, o fatal dominante X.


*

THE MOTIVE FOR METAPHOR

You like it under the trees in autumn,
Because everything is half dead.
The wind moves like a cripple among the leaves
And repeats words without meaning.


In the same way, you were happy in spring,
With the half colors of quarter-things,
The slightly brighter sky, the melting clouds,
The single bird, the obscure moon -


The obscure moon lighting an obscure world
Of things that would never be quite expressed,
Where you yourself were not quite yourself,
And did not want nor have to be,


Desiring the exhilarations of changes:
The motive for metaphor, shrinking from
The weight of primary noon,
The A B C of being,


The ruddy temper, the hammer
Of red and blue, the hard sound -
Steel against intimation - the sharp flash,
The vital, arrogant, fatal, dominant X.



Wallace Stevens
in Antologia (Maria Andresen de Sousa, trad.), Relógio D'Água

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