quinta-feira, 4 de julho de 2013

O CREPÚSCULO DO ILÍCITO

Tu, de tetas escorridas,
Com toda a tua calma,
A tua roupa interior manchada de nódoas, os teus
Braços caídos.
E esses teus dedos saciados pendendo
Da palma das mãos.


Os teus joelhos um para cada lado
São como duas esferas pesadas;
As rodelas sobre os teus olhos parecem
Vagens de lágrimas;
Presas às tuas orelhas,
Duas enormes argolas de ouro, horríveis.


O teu cabelo sem vida, espalmado numa trança
À volta da cabeça.
Os teus lábios, alongados por palavras sábias
Mas nunca ditas.


E na vida que vives, já o esgar
Dos mortos.


Vêem-te sentada ao sol,
Adormecida;
Lembrando a suave graça que costumavas ter
E não conservaste,
Lamentam como em ti estão sepultados
Os altares da luxúria.


Tu, que és o pó crepuscular do
Fogo húmido do amanhecer;
Tu, que és a mãe grandiosa
De uma prole ilícita;
Enquanto as outras definham na virtude,
Tu foste vida.


Ver-te-emos a olhar o sol
Por mais alguns anos,
Tendo sobre os olhos rodelas que parecem
Vagens de lágrimas;
E duas enormes argolas de ouro, horríveis,
Presas às orelhas.


Djuna Barnes
in O Livro das Mulheres Repulsivas (Fernanda Borges, trad.), &etc.

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