quinta-feira, 11 de julho de 2013

Laura Owens - Untitled (2000)
 
 
 
*
 
Uma rã mergulha
no velho tanque...
O ruído da água
 
*
 
Acorda acorda
Serás a minha companheira
borboleta que dormes
 
*
 
Ibisco na berma -
Floresce agora
na boca do cavalo
 
*
 
Calou-se o sino
O que chega a mim agora é o eco
das flores
 
*
 
Preso na cascata
um instante:
o verão
 
*
 
Nem lua nem estrelas -
o bebedor de saké
bebe sozinho
 
*
 
Melão
no orvalho da manhã
fresco de lama
 
*
 
Frescura:
os pés no muro
ao dormir a sesta
 
*
 
As cigarras cantam
sem saberem que é a morte
que as escuta
 
*
 
A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra
 
*
 
Sob o mesmo tecto
dormiram as prostitutas
a lua e o trevo
 
*
 
A lua deita-se -
tudo o que resta é esta mesa
e os seus quatro cantos
 
*
 
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago
 
*
 
Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas
 
*
 
A lua brilha
enquanto um verme
a castanha rói
 
*
 
A água é tão fria
Como pode a gaivota
adormecer?
 
*
 
Um vento glacial sopra
Os olhos dos gatos
pestanejam
 
*
 
As mãos no lume
... e na parede
a sombra do meu amigo
 
*
 
Tendo adoecido em viagem
em sonhos vagueio agora
na planície deserta
 
*
 
 
A SEGUNDA LIÇÃO
 
Nesta minha forma mortal, que é constituída por uma centena de ossos e alguns orifícios, há algo a que eu chamo um espírito arrebatado, na falta de um nome mais adequado, porque é muito mais uma veste delicada que se rasga e é arrastada pela brisa. Esse espírito fez com que eu começasse a escrever poesia, apenas para me divertir a princípio, mas a que por fim acabei por dedicar a minha vida. Devo admitir, contudo, que alturas houve em que mergulhei em tal desânimo que estive quase para desistir desse objectivo, e outras alturas em que me deixei possuir pelo orgulho. Na verdade, desde que comecei a escrever poesia, nunca mais tive paz comigo mesmo, ondeando sempre entre dúvidas de todas a espécie. Por um lado queria conquistar uma certa segurança, pondo-me ao serviço de algum «daimio». Por outro lado desejava medir a profundeza da minha ignorância, entrando numa escola, mas era prevenido dos dois pelo meu amor à poesia. O facto é que não conheço outra arte a não ser esta e agarrei-me a ela mais ou menos às cegas.
 
[...]
 
VERÃO
 
O calor do dia e a frescura do entardecer são coisas simples e elementares, mas é limitada a poesia que nelas reside. O mesmo se passa com a chuva, pesada e monótona, e que no entanto transfigura tudo, mesmo o coração do homem.
O cuco («hototogisu») é um pássaro migratório que chega ao Japão no início da primavera. É bastante mais pequeno que um pombo, de cor cinzenta escura no dorso, e clara no ventre. Vive na profundeza das montanhas e põe os ovos no ninho do «uguisu». O seu canto nocturno evoca tanta melancolia, que é como se sangrasse pela boca enquanto canta. Na verdade, o interior da sua boca é vermelho de sangue.
 
[...]
 
Matsuo Bashô
in O Gosto Solitário do Orvalho (versões de Jorge Sousa Braga), Assírio & Alvim

Sem comentários:

Enviar um comentário