terça-feira, 23 de julho de 2013


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a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca,
¡que língua,
que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c'est quando le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é de Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder
in A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, Assírio & Alvim

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