segunda-feira, 1 de julho de 2013

 
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Uma criança perdida afasta-se sempre:
era noite, as lâmpadas oscilavam com o vento nos fios e confundiam. Ele afastava-se, pela desordem da luz. Por vezes, entre fatos de domingo e saias rodadas, os bonecos de barro alinhavam-se nas prateleiras, as mulheres com espingardas de pressão de ar olhavam-no e encolhiam os ombros, alguns cães roçavam-lhe as pernas como gatos, ele abria a mão e a cabeça dos bichos aconchegava-se-lhe por um momento no côncavo da pele, osso e pêlo, um calor de magreza, doente, por vezes, empurravam-no, os seus óculos caíam e ele ajoelhava-se, à procura na terra batida do largo, até, depois alguém lhe perguntava: que estás aí a fazer, miúdo? Era uma voz que não chegava a parar, uma voz com um afastamento no fim, como um muro alto por onde espreitasse uma araucária. Era. Não uma noite. Mas várias. A cada passo, uma noite diferente: a noite fuliginosa de uma barraca de filhós, a noite dos cântaros, das bilhas, dos púcaros, dos alguidares de barro, do areão avermelhado, a noite que ia ficando opaca, a noite do fim da feira, das conversas, dos risos, das músicas que se afastavam, tornando a noite mais coincidente e impenetrável, a noite de deixar de ver a noite, como uma parede que se acabou de erguer, todas as noites nessa noite
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Rui Nunes
in Armadilha, Relógio D'Água

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