sábado, 27 de julho de 2013

MAGNÓLIA - PAUL THOMAS ANDERSON (1999)


4. (Linda Partridge)

O sofrimento gera culpa, a culpa
embaraça-nos os passos, embacia-nos
o dia para sempre. Enredados
em suspeitas corrosivas, não podemos
ser iguais a toda a gente, entregar
ao farmacêutico a tutela do pecado.
Que fazer com estas asas de alumínio,
perguntamos. Que fazer?

Sanguíneo, optimista, com medalhas
de gordura na lapela - tudo passa,
anuncia o boticário, com Prozac
tudo passa; não se esqueça: tome
dois de manhã cedo, pense menos,
e vai ver como o abismo tem aspectos
multiformes, positivos, confessáveis.


José Miguel Silva
in Movimentos no Escuro, Relógio D'Água

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Gerhard Richter

 
Gerhard Richter - Confrontation 2 (1988)
 
"The three paintings entitled Confrontation 1–3 [...] show Gudrun Ensslin, a German terrorist of the Red Army Faction (RAF). The paintings refer to a chronological sequence of photographs, which were taken at Essen prison after Ensslin's arrest in summer 1972. When transforming the photographical source images into paint, Richter cropped the image decisively: whereas the standing Ensslin is captured full length in the photographs, in the paintings only the upper part of her body is depicted – in almost life-size.
 In cropping the image, Richter reduces any information about Ensslin's surroundings. He forgoes another detail in addition: in the photograph that shows Ensslin looking directly at the beholder, she carries a number plate in her hand, which corresponds with Richter's original title Gegenüberstellung (= identity parade)."

 
 

O ATALANTE - JEAN VIGO (1934)




No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.


José Miguel Silva
in Movimentos no Escuro, Relógio D'Água
*

a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
¿acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias a dor, desequilíbrio e medo,
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água


Herberto Helder
in A Faca Não Corta O Fogo, súmula & inédita, Assírio & Alvim

terça-feira, 23 de julho de 2013

Courbet

 
Gustave Courbet - Le bord de mer à Palavas, 1854.

*

a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca,
¡que língua,
que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c'est quando le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é de Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder
in A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, Assírio & Alvim

AL BERTO

 
 
 
O que é um romance?

- É aquilo que um autor quiser que seja. O Herberto Hélder [sic] tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema... Não vejo por que é que essas coisas hão de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isso é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria... É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso... é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto...
 
 
Al Berto
in revista Ler, nº5 (Inverno), 1989.

domingo, 21 de julho de 2013

E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já)
Ser entregue numa salva,
Não sou nenhum profeta - e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.


T.S. Eliot
in A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (João Almeida Flor, trad.), Assírio & Alvim

me ajuda, roberto




Mas sempre acabo em teus braços do jeito que você quer – só que sempre ao contrário. Aí você está num bar super mal resolvido sexualmente e afetivamente e se depara com dois, três, quatro casaizinhos esteticamente incorretos e aparentemente felizes – afinal existe uma linha muito tênue entre felicidade e cerveja, por isso não vou forçar a barra. Então você marca um encontro com o suposto amor da sua puta vida em pleno final de semana do absurdo. Coitada, a gata está equivocadíssima. Mas como se não bastasse, você mantém aquele ar in extremis dos falsos profetas, fala muita merda, conspira a favor da autosabotagem e no dia seguinte corre pro banheiro pra vomitar sua humilde existência. Ficção pouca é bobagem. A vidinha anda insossa, eu não desgrudo do computador, eu gasto meus pobres míseros trocados demais, eu busco muito um filme sobre a realidade estagnada da vida na perspectiva de jovens como nós em pleno século XXI. Passo horas ao telefone decifrando pequenos dramas que se perdem no espaço. Ando perdido no lance cósmico e real da coisa. Aí o carinha disse que temos uma história, mas nossa história é para um futuro não tão próximo assim. Inclusive todos os meus brindes serão dedicados ao futuro. Mas eu me sinto horrivelmente belo.
 
 
Antônio LaCarne
 

O MOTIVO PARA A METÁFORA


No outono gostamos de estar debaixo das árvores
Por uma semi-morte que há em tudo.
O vento move-se como um coxo entre a folhagem
E repete palavras sem sentido.


Assim, também, fomos felizes na primavera,
Pelas meias cores das coisas às metades,
O céu um pouco mais brilhante, nuvens derretendo,
O simples pássaro, a lua obscura -


A lua obscura iluminando um mundo obscuro
De coisas que nunca seriam bem expressas
Onde tu próprio nunca foste bem tu mesmo
E não quiseste ou tiveste que ser,


Desejando a exaltante mudança:
O motivo para a metáfora retraindo-se
Ao peso do meio-dia inicial,
O A B C do ser,


O rubro humor, o martelar
Do vermelho e do azul, o som áspero -
Em vez de sugestões, o aço - o clarão,
O arrogante e vital, o fatal dominante X.


*

THE MOTIVE FOR METAPHOR

You like it under the trees in autumn,
Because everything is half dead.
The wind moves like a cripple among the leaves
And repeats words without meaning.


In the same way, you were happy in spring,
With the half colors of quarter-things,
The slightly brighter sky, the melting clouds,
The single bird, the obscure moon -


The obscure moon lighting an obscure world
Of things that would never be quite expressed,
Where you yourself were not quite yourself,
And did not want nor have to be,


Desiring the exhilarations of changes:
The motive for metaphor, shrinking from
The weight of primary noon,
The A B C of being,


The ruddy temper, the hammer
Of red and blue, the hard sound -
Steel against intimation - the sharp flash,
The vital, arrogant, fatal, dominant X.



Wallace Stevens
in Antologia (Maria Andresen de Sousa, trad.), Relógio D'Água

sábado, 20 de julho de 2013

ENTERRO SOB O SOL


Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água



Ruy Belo
in Transporte no Tempo, Presença

quinta-feira, 18 de julho de 2013

NOCTURNO


A colina é nocturna, no céu claro.
Nela se enquadra a tua cabeça, que mal se move
e acompanha o céu. És como uma nuvem
entrevista pelos ramos. Ri-se-te nos olhos
a estranheza dum céu que não é o teu.

A colina de terra e folhas encerra
com a sua negra massa o teu olhar vivo,
a tua boca tem a prega duma doce cavidade
no meio das encostas distantes. Pareces brincar
à grande colina e à claridade do céu:
para me dares prazer, repetes a paisagem antiga
e torna-la mais pura.

                             Mas vives noutro lugar.
O teu terno sangue fez-se noutro lugar.
As palavras que dizes não têm comparação
com a tristeza áspera deste céu.
És apenas uma nuvem dulcíssima, branca,
que uma noite ficou presa nos ramos antigos.


Cesare Pavese
in Trabalhar Cansa (Carlos Leite, trad.), Cotovia

quarta-feira, 17 de julho de 2013

pés descalços

*
 
Kleist escreveu algures que aquilo que o poeta mais gostaria de ser capaz de fazer seria comunicar pensamentos sem recorrer a palavras. (Que estranha confissão.)
 
*
 
O inexprimível (o que considero misterioso e não sou capaz de exprimir) talvez seja o pano-de-fundo a partir do qual recebe sentido seja o que for que eu possa exprimir.
 
*
 
Nunca consegui, senão pela metade, exprimir o que quero exprimir. Na realidade, talvez nem tanto, apenas um décimo. Isso ainda tem algum significado. Muitas vezes, a minha escrita não é mais do que uma «gaguez».
 
*
 
Por vezes, parece-me que já filosofo com gengivas desdentadas e que olho o falar sem dentes como a maneira correcta de falar, como a maneira que mais vale a pena. Consigo detectar algo de semelhante em Kraus. Em vez de o reconhecer como uma deterioração.
 
*
 
Se penso num assunto apenas para comigo e sem uma intenção de escrever um livro, saltito à sua volta; é a única maneira de pensar que é em mim natural. Forçar os meus pensamentos a uma sequência ordenada é para mim um tormento. Valerá sequer a pena tentar, nestas circunstâncias, fazê-lo?
Desperdiço uma quantidade indescritível de esforço na organização dos meus pensamentos, que talvez não tenha qualquer valor.
 
*
 
Shakespeare e o sonho. Um sonho é inteiramente falso, absurdo, composto e, todavia, é ao mesmo tempo inteiramente verdadeiro: elaborado desta estranha maneira provoca uma impressão. Porquê? Não sei. E se Shakespeare é grande, como se diz que é, então deve ser possível dizer a seu respeito: está tudo mal, as coisas não são assim - e ao mesmo tempo, contudo, está tudo inteiramente certo de acordo com uma lei que lhe é própria.
As coisas também se poderiam pôr nestes termos: se Shakespeare é grande, a sua grandeza revela-se apenas na colecção completa das suas peças, que criam a sua própria linguagem e o seu próprio mundo. Por outras palavras, ele é de todo irrealista. (Como um sonho).
 
*
 
Nada podes escrever sobre ti que seja mais verdadeiro do que tu próprio és: eis a diferença entre escrever sobre ti próprio e escrever sobre objectos externos. Cada um escreve sobre si próprio de acordo com a altura a que se encontra. Não te encontras sobre umas andas ou numa escada, mas sobre os teus pés descalços.
 
 
Ludwig Wittgenstein
in Cultura e Valor (Jorge Mendes, trad.), edições 70.

terça-feira, 16 de julho de 2013


Fawn - Tom Waits
 
Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão. Na altura vinha uma espécie de luz da única janela alta. Debaixo dela ainda o banco por onde ele subia para ver o céu até mais não poder ou não querer. Se não se esticava para ver o que havia lá por baixo era talvez porque a janela não era feita para abrir ou porque ele não a podia ou não a queria abrir. Talvez ele soubesse até bem de mais o que havia lá por baixo e nunca mais o quisesse ver. E assim mais não fazia que pôr-se ali de pé bem alto acima da terra a olhar através do vidro nublado para o céu sem nuvens. A luz fraca e fixa do céu como nenhuma outra luz de que ele se lembrasse dos dias e das noites em que dia dava em noite e noite dava em dia. Então esta luz exterior quando a luz que ele tinha se apagou tornou-se na única luz que tinha até que por sua vez se apagou e deixou-o na escuridão. Até que por sua vez se apagou.
 
 
Samuel Beckett
in Últimos Trabalhos de Samuel Beckett (Miguel Esteves Cardoso, trad.), O Independente/Assírio & Alvim

domingo, 14 de julho de 2013

DITADO SEM INTERFERÊNCIAS


Cheio de diamantes no estômago
(numa antecipação ao Paraíso)
contemplo a cidade dum miradouro
e oiço vozes ao longe sob o arco
do nevoeiro; então, transcrevo o canto
petrificado em uma sombra no deserto

Cauteloso, mui rápido, tal qual um gato,
meço o tamanho vocal só dum salto
d' acôrdo com meu corpo escanzelado,
instrumento silencioso afim do espírito:
transcrevo e não me atrevo a calar o estrépito


António Barahona
in As Grandes Ondas, Averno

sábado, 13 de julho de 2013

NEVE


Arde a neve na cara e nas mãos e à serra
trepo para então me confundir. Queima
a intensidade do gelo. Ferem e cortam
os cristais da neve. Quando gelam
ribeiras e os tanques ficam pedra,
os canos rebentam certas vezes: explosão
de gelo; incêndios de neve.
Arde a neve na saudade de a não ter
e já o silêncio da serra dói
de o não sentir. De novo à neve
volto e me perco nos cerros
quando a claridade cega
de tanta brancura. Impossível
serenidade: por ti espero.


Eduardo Guerra Carneiro
in Contra a Corrente, &etc

sexta-feira, 12 de julho de 2013

«Sebastião Opus Night recapitulou a viagem de táxi e as prostitutas de estrada penduradas nas árvores ao luar (ninguém lhe tirava da cabeça que as gajas não estavam pura e simplesmente numa grandessíssima missa negra, as putas de rostos metálicos.) Havia camionetas e camionetas de peregrinos a caminho de Fátima que deixavam um rasto de cânticos na noite; e uma máquina de discos aos coices dentro do bar; e chulos, como é das normas, os chulecos nunca faltavam nestes panoramas; para terminar, aparecer a tal cruzada dos aflitos da bexiga a invadir o Posto Shell, com um cão-satanás a perseguir uma freira matulona, 'sacana de noite, pá.'»
 
José Cardoso Pires
in Alexandra Alpha, Dom Quixote

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Laura Owens - Untitled (2000)
 
 
 
*
 
Uma rã mergulha
no velho tanque...
O ruído da água
 
*
 
Acorda acorda
Serás a minha companheira
borboleta que dormes
 
*
 
Ibisco na berma -
Floresce agora
na boca do cavalo
 
*
 
Calou-se o sino
O que chega a mim agora é o eco
das flores
 
*
 
Preso na cascata
um instante:
o verão
 
*
 
Nem lua nem estrelas -
o bebedor de saké
bebe sozinho
 
*
 
Melão
no orvalho da manhã
fresco de lama
 
*
 
Frescura:
os pés no muro
ao dormir a sesta
 
*
 
As cigarras cantam
sem saberem que é a morte
que as escuta
 
*
 
A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra
 
*
 
Sob o mesmo tecto
dormiram as prostitutas
a lua e o trevo
 
*
 
A lua deita-se -
tudo o que resta é esta mesa
e os seus quatro cantos
 
*
 
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago
 
*
 
Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas
 
*
 
A lua brilha
enquanto um verme
a castanha rói
 
*
 
A água é tão fria
Como pode a gaivota
adormecer?
 
*
 
Um vento glacial sopra
Os olhos dos gatos
pestanejam
 
*
 
As mãos no lume
... e na parede
a sombra do meu amigo
 
*
 
Tendo adoecido em viagem
em sonhos vagueio agora
na planície deserta
 
*
 
 
A SEGUNDA LIÇÃO
 
Nesta minha forma mortal, que é constituída por uma centena de ossos e alguns orifícios, há algo a que eu chamo um espírito arrebatado, na falta de um nome mais adequado, porque é muito mais uma veste delicada que se rasga e é arrastada pela brisa. Esse espírito fez com que eu começasse a escrever poesia, apenas para me divertir a princípio, mas a que por fim acabei por dedicar a minha vida. Devo admitir, contudo, que alturas houve em que mergulhei em tal desânimo que estive quase para desistir desse objectivo, e outras alturas em que me deixei possuir pelo orgulho. Na verdade, desde que comecei a escrever poesia, nunca mais tive paz comigo mesmo, ondeando sempre entre dúvidas de todas a espécie. Por um lado queria conquistar uma certa segurança, pondo-me ao serviço de algum «daimio». Por outro lado desejava medir a profundeza da minha ignorância, entrando numa escola, mas era prevenido dos dois pelo meu amor à poesia. O facto é que não conheço outra arte a não ser esta e agarrei-me a ela mais ou menos às cegas.
 
[...]
 
VERÃO
 
O calor do dia e a frescura do entardecer são coisas simples e elementares, mas é limitada a poesia que nelas reside. O mesmo se passa com a chuva, pesada e monótona, e que no entanto transfigura tudo, mesmo o coração do homem.
O cuco («hototogisu») é um pássaro migratório que chega ao Japão no início da primavera. É bastante mais pequeno que um pombo, de cor cinzenta escura no dorso, e clara no ventre. Vive na profundeza das montanhas e põe os ovos no ninho do «uguisu». O seu canto nocturno evoca tanta melancolia, que é como se sangrasse pela boca enquanto canta. Na verdade, o interior da sua boca é vermelho de sangue.
 
[...]
 
Matsuo Bashô
in O Gosto Solitário do Orvalho (versões de Jorge Sousa Braga), Assírio & Alvim

terça-feira, 9 de julho de 2013

2


entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura.
junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo, e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amastes perdura.


António Franco Alexandre
in Poemas, Assírio & Alvim

domingo, 7 de julho de 2013

THE DAY LADY DIED

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton   
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me


I walk up the muggy street beginning to sun   
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets   
in Ghana are doing these days

                             I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)   
doesn’t even look up my balance for once in her life   
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine   
for Patsy with drawings by Bonnard although I do   
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or   
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness


and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and   
then I go back where I came from to 6th Avenue   
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and   
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing
 
*
 
THE DAY LADY DIED
 
São 12:20 em Nova Iorque uma sexta-feira
três dias depois do dia da Bastilha, sim
é 1959 e vou engraxar os sapatos
porque sairei do das 4:19 em Easthampton
às 7:15 e depois vou direito ao jantar
e nem conheço as pessoas que me convidaram
 
caminho pela rua sufocante onde o sol começa a aparecer
e como um hamburguer e um malte e compro
um feio NEW WORLD WRITING para ver o que os poetas
do Gana escrevem por estes dias
                               entro no banco
e Miss Stillwagon (nome próprio Linda ouvi dizer)
nem sequer olha para o meu saldo por uma vez na vida
e no GOLDEN GRIFFIN compro um pequeno Verlaine
para Patsy com desenhos de Bonnard embora hesite
quanto ao Hesíodo, trad. Richmond Lattimore ou
a nova peça de Brendan Behan ou Le Balcon ou Les Nègres
de Genet, mas não, permaneço com Verlaine
depois de quase adormecer de embaraço
 
e para Mike limito-me a passar pela Loja de Bebidas
de PARK LANE e compro uma garrafa de Strega e
então regresso por onde vim para a 6ª Avenida
e a tabacaria no Ziegfield Theatre e
distraidamente peço um maço de Gauloises e um maço
de Picayunes, e um NEW YORK POST que traz a cara dela
 
e agora já estou a suar muito e pensando em
encostar-me à porta da retrete do 5 SPOT
enquanto ela sussurrava uma canção ao correr do teclado
para Mal Waldron e eu e todos deixámos de respirar

Frank O'Hara
in Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço (José Alberto Oliveira trad.), Relógio D'Água

sábado, 6 de julho de 2013

Terceiro poema


As sombras caem também com os besouros.
O som distante de um farol indica uma
ameaça que vem rasteira de encontro aos
contentores. Há corpos que se levantam
perante o sol enquanto alguém com uma
bandeira atravessa o fundo do rio.

Quando as aves descobrem os esgotos
assiste-se a um último repasto. É o combate
dos peixes, uma visão intercalar entre a luz
e o medo. É aí que tudo se joga, a loucura
e o brilho dos olhos. Uma serpente tomba de
um mastro e corrói os passeios. Uma mulher
despedaça os cabelos contra uma estátua.

É o vírus febril que se apodera dos homens,
um ácido que desenha a cidade de um modo
inexplicável. Até à morte.


Jaime Rocha
in Base: Revista de Criação Literária (Número 01: Erros, 2005)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

SONETO JÁ ANTIGO


Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Embora não o sintas, que tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de


Londres p'ra York, onde nasceste (dizes...
Que eu nada que tu digas acredito),
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes,


Embora não o saibas, que morri...
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará... Depois vai dar


A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!


Fernando Pessoa
in Ficções do Interlúdio 1914-1935 (Fernando Cabral Martins, ed.), Assírio & Alvim

SEGUNDA CLASSE


Estávamos os dois no comboio
para Tomar, mais precisamente
no gueto trepidante dos fumadores,
quando ele me pediu o isqueiro
"só p'ra fazer um charro" e eu lho dei.
Gastou-o nisso, quis-mo pagar, declinei.

Algumas estações à frente, voltou
a precisar do lume que garantisse
um pouco mais de esquecimento.
Fumámos juntos, falando sobre o tempo
e outras derrotas banais. A surpresa maior,
porém, foi quando me disse a vontade
de ler que a "moca" por hábito lhe trazia.
Que só tinha livros estranhos, ripostei,
mas qualquer (afiançou) serviria ao seu desejo.
Emprestei-lhe o menos bizarro - que era
meu, por azar - disfarçando mal o embaraço.

Leu uma dúzia de páginas (a minha estação
estava próxima), cabeceando às vezes
e passando as folhas com dificuldade.

Outras obras, percebia-se, requeriam
os seus dedos largos e fabris.
"Tem poemas fixes", foi o seu único
comentário, talvez o que de todos prefiro
tão distante do esterco dos jornais.

A verdade, apeteceu-me dizer, é que
os comboios e a teoria da literatura
nunca levaram a lado nenhum. Em vez disso,
agradeci o charro, deixei-lhe o isqueiro
e nem sequer menti ao desejar-lhe "Bom Natal".


Manuel de Freitas
in Blues for Mary Jane, &etc.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

GÉNESE E DESENVOLVIMENTO DO POEMA


Vozes vizinhas vindas da infância
através do sotaque de quem fala aqui ao lado
o sol inexorável sobre as águas
pressentimentos vindos com o vento
a velha fortaleza a vista da baía
a maré cheia a tarde as nuvens o azul
memória disto tudo noutro verão noutro lugar
e pelo meu olhar visivelmente vitimado
tudo possível pela mesa e pela esferográfica
pelo papel desculpa ó minha amiga pelo bar
a solidão assegurada pela multidão
a luz a hora as férias o domingo
o cruzeiro de pedra o largo o automóvel
tudo isto não importa importam só
as mínimas e únicas palavras que me ficam disto tudo
e tudo isto fixam: «tempo suspenso» ou «mar imóvel»
ou «sinto-me bem» ou - que sei eu? - «alguém morreu»


Ruy Belo
in Transporte no Tempo, Presença

Arvo Pärt


Arvo Pärt - Spiegel Im Spiegel (1978)

O CREPÚSCULO DO ILÍCITO

Tu, de tetas escorridas,
Com toda a tua calma,
A tua roupa interior manchada de nódoas, os teus
Braços caídos.
E esses teus dedos saciados pendendo
Da palma das mãos.


Os teus joelhos um para cada lado
São como duas esferas pesadas;
As rodelas sobre os teus olhos parecem
Vagens de lágrimas;
Presas às tuas orelhas,
Duas enormes argolas de ouro, horríveis.


O teu cabelo sem vida, espalmado numa trança
À volta da cabeça.
Os teus lábios, alongados por palavras sábias
Mas nunca ditas.


E na vida que vives, já o esgar
Dos mortos.


Vêem-te sentada ao sol,
Adormecida;
Lembrando a suave graça que costumavas ter
E não conservaste,
Lamentam como em ti estão sepultados
Os altares da luxúria.


Tu, que és o pó crepuscular do
Fogo húmido do amanhecer;
Tu, que és a mãe grandiosa
De uma prole ilícita;
Enquanto as outras definham na virtude,
Tu foste vida.


Ver-te-emos a olhar o sol
Por mais alguns anos,
Tendo sobre os olhos rodelas que parecem
Vagens de lágrimas;
E duas enormes argolas de ouro, horríveis,
Presas às orelhas.


Djuna Barnes
in O Livro das Mulheres Repulsivas (Fernanda Borges, trad.), &etc.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

POEMA DE DESAMOR

 


Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato


Alexandre O'Neill
in Poesias Completas, Assírio & Alvim

RÊVE OUBLIÉ

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda de uma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha

E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro
E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata


António Maria Lisboa
in Edoi Lelia Doura: Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (Herberto Helder, org), Assírio & Alvim