quinta-feira, 27 de junho de 2013


     Ora, em Paris, tive uma visão. Uma coisa formidável. Não estava bêbado nem drogado. Um bocado de solidão apenas. Uma visão prometida desde sempre. Subitamente desabrocha: é o sinal de que um ciclo se completou. Então a gente desata a escrever desaforadamente, publica livros. Um dia uma pessoa está num quarto, deitada de costas, olhando para o tecto, respirando pausadamente. Pensa: como será neste momento a minha cara? Sabe-se - e com que abalo! - que tem uma expressão de pânico. Envelhecemos ali, olhando para a cal do tecto. Lá para trás as páginas escritas apodreceram. A vida que se foi desenvolvendo em torno de um obscuro crime (ter conseguido não morrer muito depressa? e ter por isso recorrido ao jogo concêntrico das palavras?), a vida, essa vida que não dava paz, pelo próprio tremor desavindo da maravilha anunciada, sim, essa vida aglomerou-se em torno da festa essencial do crime, e as pequenas festas criminais desencadearam a forma em movimento, o filme vocabular.
     Vamos amar a vida activa?, pergunto eu então. Sim, vamos entrar num barco que chegue de noite aos portos. Teremos horas e horas destinadas à preparação interior, ao apuramento das nossas melhores virtudes. Procuramos nem sequer respirar. Vai ser bom. De manhã haverá a revelação de cidades que a luz equilibra ao alto. O lugar da acção. Vamos fazer coisas - coisas definitivas. Escrever, acabou-se. Agora, isto: mergulhar até ao fundo. Porque ficou assente: a literatura não é um facto, um acto a sério. 
 
Herberto Helder
in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim

2 comentários:

  1. Muito bom, Frederico Pedreira. Adoro o seu blogue, o seu método de publicação, a sua discrição antes de tudo. Diz-se que um blogue é bom não apenas pelo conteúdo mas pela seriedade da coisa. Continue o bom trabalho. Cá estarei para ler as suas publicações. E, como outro já disse inteiramente, com faúlhas de broa-de-milho a pejar os cantos da boca: Águas passadas Não movem Moinhos - que é como quem diz, preocupa-te com a tua vida, pá. Abraços, Frederico.

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