quinta-feira, 27 de junho de 2013

LARGAR UM FÓSFORO A ISTO TUDO


 

Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste... Dentro de pouco tempo estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou aqui por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto da terra.
 
Louis-Ferdinand Céline
in Morte a Crédito (Luiza Neto Jorge, trad.), Assírio & Alvim.

João de Deus:
Não consegui pregar olho esta noite. Tenho o corpo cheio de bagas vermelhas. Estou lindo. Coço-me ao de leve, com a ponta dos dedos, para não provocar feridas. Se meto a unha, e é uma tentação, estou feito. Seriam três da manhã quando saí para a rua. Já não podia mais. O ódio sufocava-me, a cabeça parecia latejar por dentro. Ainda os sentia a passear descaradamente em cima de mim, a esfregar as patinhas de satisfação. Sustinha a respiração, esforçava-me para não fazer bulir um pentelho e, de repente, zás! Acendia a luz, sacudia os lençóis e punha-me a vasculhar a cama toda que nem doido. Nem um. Nem um finalmente esborrachado entre as minhas unhas, que esguichasse sangue por todos os lados. Só se aventuram às escuras, os cobardes. E mesmo assim, devem vir camuflados, cobertos pelo pó das frinchas e dos recantos bafientos do quarto. Largar um fósforo a isto tudo, atear fogo à palha podre de velha do colchão e dançar de alegria no meio das labaredas, enquanto os ouço crac crac a estalar como castanhas ao lume.
 
João César Monteiro
in Recordações da Casa Amarela, 1989.

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