segunda-feira, 24 de junho de 2013

CÃO DE CEGO


Num cesto baixo estão amontoados os jornais.
No soalho aos quadrados de madeira, um sapato
e uma gravata de cores absurdas
para quem conhece as tuas repressões.
Numa banqueta pousam as revistas
e o ruído do aspirador conjura-se à toada
da máquina de lavar roupa e à louça
que estremece sobre o frigorífico.
É um interior holandês ou português?
Com o quadro suspenso por grossos cordões,
o veludo rasgado do divã e as estantes
de livros inúteis e imperdoáveis, talvez seja
um baldio dos afectos, uma terra de ninguém.

Hoje o céu vai alto e atravessam-no os corvos
com um mistério duro nas asas peregrinas
sobre a campa rasa do mundo.
Espiras de telha preta reflectem o meio-dia;
mais longe rodam aros de um moinho.
As coisas banais junto das que depois hão-de vir

Os tornozelos, a rótula, o osso da bacia
eram mais largos do que eu supunha
ao ver-lhe o vulto esguio na escada;
assentava bem na terra sem altura da Holanda
todo esse corpo que eu prendia,
um sino de água desapiedado.
Já não estava ninguém no salão patriarcal,
estávamos nós a falar de fungos, de pó-de-talco, de vacinas
à espera que se detivesse a noite,
que fossem mais firmes os dedos arrependidos.

Quando te vês ao espelho é o que não vês
a farsa da piedade
e da contrição.
Estou tão cansado, cão.
Não acendas nada, apaga
a sombra do candeeiro, a paz,
a viseira do costume. A lapela do casaco
ressoterrada de lume.

Joaquim Manuel Magalhães

in Sloten (As Escadas não têm Degraus, 3), Cotovia.

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