domingo, 30 de junho de 2013

O MANUAL DE INSTRUÇÕES


Aqui sentado a olhar pela janela do edifício
Gostava de não ter de escrever o manual de instruções sobre os usos de um novo metal.
Olho lá para baixo para a rua e vejo as pessoas, indo cada uma delas em paz interior,
E invejo-as - estão tão longe de mim!
Nenhuma delas tem de se preocupar com a saída deste manual dentro do prazo.
E como é meu hábito, ponho-me a sonhar, pousando os cotovelos na secretária e debruçando-me ligeiramente da janela,
Com a apagada Guadalajara! Cidade das flores cor-de-rosa!
Cidade que eu mais queria ver, e menos acabei por ver, no México!
Mas julgo estar a ver, sob a pressão de ter de escrever o manual de instruções,
A tua praça pública, oh cidade, com o seu elaborado pequeno coreto!
A banda está a tocar a Xehrazade de Rimski-Korsakov.
À volta estão as floristas, oferecendo flores cor-de-rosa ou de limão,
Atraentes todas nos seus vestidos às riscas azuis e rosa (Ah! esses tons de azul e rosa),
E ao lado é a tendinha branca onde mulheres vestidas de verde nos servem fruta amarela e verde.
Os casais passeiam-se; toda a gente está com ar de festa.
À frente, encabeçando o passeio, está um sujeito bem-posto
Vestido de azul-escuro. Na cabeça traz um chapéu branco
E usa bigode, que foi espontado para a ocasião.
O seu encanto, a mulher, é bonita e nova; o xaile dela é rosa, avermelhado e branco.
As chinelas são de couro genuíno, à moda americana,
E traz um leque, porque é modesta, e não quer que a multidão lhe veja demasiado a cara.
Mas toda a gente está de tal modo entretida com a mulher ou os familiares
Que duvido que reparem na mulher do homem de bigode.
Cá estão os rapazes! Vêm a saltar e a atirar coisinhas para cima do passeio
Feito de ladrilhos cinzentos. Um deles, um pouco mais velho, tem um palito nos dentes.
É mais calado que os outros, e faz de conta que não repara nas bonitas rapariguinhas de branco.
Mas os amigos dele reparam, e mandam as suas bocas às raparigas que riem.
Em breve todavia tudo isto terá acabado, com o decorrer dos anos,
E o amor trará cada um deles a este passeio por outras razões.
Com isto perdi de vista o jovem do palito.
Um momento - lá está ele - do outro lado do coreto,
Escondido dos amigos, em conversa fechada com uma rapariga
De uns catorze ou quinze anos. Tento escutar o que estão a dizer
Mas parece que estão só a sussurrar qualquer coisa - tímidas palavras de amor, provavelmente.
Ela é ligeiramente mais alta do que ele, e olha-lhe calada para dentro dos olhos sinceros.
Está vestida de branco. A brisa emaranha-lhe o belo cabelo negro comprido contra a face morena.
Está obviamente apaixonada. Quanto ao rapaz, o jovem rapaz do palito, também ele está apaixonado;
Vê-se nos olhos. Ao afastar-me deste par,
Reparo que há um intervalo no concerto.
Os desfilantes estão a descansar e a sorver por palhinhas tragos das bebidas
(As bebidas são aviadas de uma grande caneca de vidro por uma senhora de azul-escuro),
E os músicos andam no meio deles, com o branco sujo dos seus uniformes, e falam
Do tempo, provavelmente, ou de como os filhos se dão na escola.

Aproveitemos a ocasião para entrar de mansinho numa das ruas laterais.
Podemos ver aqui uma dessas casas brancas com adornos verdes
Que são aqui tão populares. Vejam - eu bem vos disse!
É fresco e escuro lá dentro, mas o pátio é soalheiro.
Uma velha de cinzento está lá sentada, abanando um leque de folha de palma.
Dá-nos as boas vindas ao pátio e oferece-nos uma bebida fresca.
«O meu filho está na cidade do México», diz-nos. «Também vos recebia
Se cá estivesse. Mas está lá a trabalhar num banco.
Olhem, é uma fotografia dele.»
E um rapaz de pele escura com dentes cor de pérola sorri-nos da gasta moldura de couro.
Agradecemos-lhe a hospitalidade, porque se está a fazer tarde
E queremos ter uma panorâmica da cidade, antes de partirmos, de um bom lugar elevado.
Aquela torre de igreja serve - a cor de rosa velho, ali contra o ardente azul do céu. Entramos devagar.
O guarda, um velhote vestido de cinzento e castanho, pergunta-nos há quanto tempo estamos na cidade, e se gostamos de cá estar.
A filha dele está a esfregar os degraus - cumprimenta-nos quando passamos à torre.
Em breve chegamos ao topo, e todo o reticulado da cidade se estende à nossa frente.
Ali é a zona rica com as suas casas brancas e rosa e os seus terraços a esfarelar-se, cheios de folhas.
Ali é a zona mais pobre com as suas casas azuis-escuras.
Ali é o mercado onde há homens a vender chapéus e a enxotar moscas
E ali é a biblioteca pública pintada de vários tons de
verde-claro e bege.
Olhem! Ali é a praça de onde viemos, onde as pessoas passeiam.
Há menos a fazê-lo, agora que o calor do dia aumentou,
Mas o rapaz e a rapariga ainda se escondem nas sombras do coreto.
E ali é a casa da velhota -
Ainda está sentada no pátio, a abanar o leque.
Como foi limitada, mas ao mesmo tempo completa, a nossa experiência de Guadalajara
Vimos um amor juvenil, amor conjugal, e o amor de uma mãe idosa pelo seu filho.
Ouvimos a música, provámos as bebidas, e olhámos para casas coloridas
Que mais há a fazer, senão ficar? Mas isso não pode ser.
E enquanto uma última brisa refresca o topo da velha torre exposta, volto a olhar
Para o manual de instruções que me fez sonhar com Guadalajara.

John Ashbery
in Auto-Retrato num Espelho Convexo e Outros Poemas (António M. Feijó, trad.), Relógio D'Água

O MENOS POSSÍVEL


O MENOS POSSÍVEL

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães


DIA DA LIBERDADE

Toda a noite os sapatos azuis
de um livro de viagens muito antigo
dançaram nas lamas rendidas
às sedas da chuva

Agora o dia protege-se com palha loira
do hálito do pensamento
confiante como um profeta
à espera da hora marcada

Se resistir às nuvens
de moscas sem espírito
talvez a estrela dos desejos
ao alcance das mãos

Lhe dê acesso
à força do vento
num ilhéu de fogo
cercado de águas surdas


Ernesto Sampaio
in Feriados Nacionais, Fenda

sábado, 29 de junho de 2013

PROPEDÊUTICA


Em Linda-a-Velha,
num banco de jardim, onde não há
jardim, apenas cimento,
os dejectos do cimento
e o barulho de uma bomba
que chupa a água do esgoto.

Mais doloroso
que as Linda-a-Velhas
deste mundo, é estar
sentado nelas,
nem banco de jardim,
sem jardim. Eu merecia
estar num jardim persa,
ao pôr do sol,

comendo uvas, bebendo
um licor que soubesse
a noite e a rosas, desejando
ser feliz em qualquer
Linda-a-Velha deste mundo,
rodeado pelo cimento pávido
do mundo.

José Alberto Oliveira
in Mais Tarde, Assírio & Alvim

Rosas


MY WORK

My work
is prose and poetry
but I like more Rose
than dinasty.
My Rose
is mine
and dinasty
I have no one.
Poetry only
is my dinasty
my work
but I like prose too
when I am with Rose
comprennez-vous?



AS FORMAS DE ROSA

As formas da rosa
lembram-me peixes.
Elas são brancas, lácteas,
as formas de Rosa
são pura razão.
Nas formas de Rosa
estão os peixes, o lago, o arco, o mar,
está um bocado de Céu a sombrear,
e eu amo Rosa.
Quero Rosa. Rosa quer-me a mim amar.
Eu sei que há entre mim e Rosa
um romance que nunca chegou a começar
e eu então ao pensar em Rosa
faço rios, fios de poesia e falo-lhe sem ser em prosa.
Porque um dia Rosa há-de ser minha
na concepção que tinha
à esposa que nunca tive e não quero
faço a amante
e é aí que desespero.
Que neste poema cante o que quero.
nas formas de Rosa estão os peixes que me altero.


António Gancho
in O Ar da Manhã, Assírio & Alvim

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Hey! Get a job!



 
 
 
Daniel Johnston
 
 
Listen up and I'll tell a story
About an artist growing old
Some would try for fame and glory
Others aren't so bold
Everyone, and friends and family
Saying, "Hey! Get a job!"
"Why do you only do that only?
Why are you so odd?
We don't really like what you do.
We don't think anyone ever will.
It's a problem that you have,
And this problem's made you ill."
Listen up and I'll tell a story
About an artist growing old
Some would try for fame and glory
Others aren't so bold
The artist walks alone
Someone says behind his back,
"He's got his gall to call himself that!
He doesn't even know where he's at!"
The artist walks among the flowers
Appreciating the sun
He does this all his waking hours
But is it really so wrong?
They sit in front of their TV
Saying, "Hey! This is fun!"
And they laugh at the artist
Saying, "He doesn't know how to have fun."
The best things in life are truly free
Singing birds and laughing bees
"You've got me wrong", says he.
"The sun don't shine in your TV"
Listen up and I'll tell a story
About an artist growing old
Some would try for fame and glory
Others aren't so bold
Everyone, and friends and family
Saying, "Hey! Get a job!"
"Why do you only do that only?
Why are you so odd?
We don't really like what you do.
We don't think anyone ever will.
It's a problem that you have,
And this problem's made you ill."
Listen up and I'll tell a story
About an artist growing old
Some would try for fame and glory
Others just like to watch the world.

Ainda a propósito de Hemingway

 
8 - DA LITERATURA
 
Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.
 
Miguel Martins
in Lérias, Averno.

HEMINGWAY






"Leituras para uma ética privada de Ernest Hemingway",  ensaio que escrevi e pode ser lido aqui.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

LARGAR UM FÓSFORO A ISTO TUDO


 

Aqui estamos mais uma vez sozinhos. Tudo isto é tão lento, tão pesado, tão triste... Dentro de pouco tempo estarei velho. Tudo então se acabará. Tanta gente que passou aqui por este quarto. Disseram coisas. Não me disseram grande coisa. Foram-se embora. Envelheceram, tornaram-se lentos e miseráveis, cada qual no seu recanto da terra.
 
Louis-Ferdinand Céline
in Morte a Crédito (Luiza Neto Jorge, trad.), Assírio & Alvim.

João de Deus:
Não consegui pregar olho esta noite. Tenho o corpo cheio de bagas vermelhas. Estou lindo. Coço-me ao de leve, com a ponta dos dedos, para não provocar feridas. Se meto a unha, e é uma tentação, estou feito. Seriam três da manhã quando saí para a rua. Já não podia mais. O ódio sufocava-me, a cabeça parecia latejar por dentro. Ainda os sentia a passear descaradamente em cima de mim, a esfregar as patinhas de satisfação. Sustinha a respiração, esforçava-me para não fazer bulir um pentelho e, de repente, zás! Acendia a luz, sacudia os lençóis e punha-me a vasculhar a cama toda que nem doido. Nem um. Nem um finalmente esborrachado entre as minhas unhas, que esguichasse sangue por todos os lados. Só se aventuram às escuras, os cobardes. E mesmo assim, devem vir camuflados, cobertos pelo pó das frinchas e dos recantos bafientos do quarto. Largar um fósforo a isto tudo, atear fogo à palha podre de velha do colchão e dançar de alegria no meio das labaredas, enquanto os ouço crac crac a estalar como castanhas ao lume.
 
João César Monteiro
in Recordações da Casa Amarela, 1989.

     Ora, em Paris, tive uma visão. Uma coisa formidável. Não estava bêbado nem drogado. Um bocado de solidão apenas. Uma visão prometida desde sempre. Subitamente desabrocha: é o sinal de que um ciclo se completou. Então a gente desata a escrever desaforadamente, publica livros. Um dia uma pessoa está num quarto, deitada de costas, olhando para o tecto, respirando pausadamente. Pensa: como será neste momento a minha cara? Sabe-se - e com que abalo! - que tem uma expressão de pânico. Envelhecemos ali, olhando para a cal do tecto. Lá para trás as páginas escritas apodreceram. A vida que se foi desenvolvendo em torno de um obscuro crime (ter conseguido não morrer muito depressa? e ter por isso recorrido ao jogo concêntrico das palavras?), a vida, essa vida que não dava paz, pelo próprio tremor desavindo da maravilha anunciada, sim, essa vida aglomerou-se em torno da festa essencial do crime, e as pequenas festas criminais desencadearam a forma em movimento, o filme vocabular.
     Vamos amar a vida activa?, pergunto eu então. Sim, vamos entrar num barco que chegue de noite aos portos. Teremos horas e horas destinadas à preparação interior, ao apuramento das nossas melhores virtudes. Procuramos nem sequer respirar. Vai ser bom. De manhã haverá a revelação de cidades que a luz equilibra ao alto. O lugar da acção. Vamos fazer coisas - coisas definitivas. Escrever, acabou-se. Agora, isto: mergulhar até ao fundo. Porque ficou assente: a literatura não é um facto, um acto a sério. 
 
Herberto Helder
in Photomaton & Vox, Assírio & Alvim

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O FIM


Sabemos que o dia se aproxima do fim
quando o balcão é preenchido pelos homens
de fato e gravata que chegam para beber cerveja


e comer moelas fritas.
Nesse preciso momento pedimos duas bicas,
já não dizemos nada, rimo-nos


dos artigos de um conhecido matutino.
Temos projectos: jantar e beber vinho,
talvez ainda o eco de uma derrota.


Não levamos muito a sério
aquilo que teria de ser cumprido.
Nada é mais importante


do que acordar no outro dia, nem o amor.
Evidentemente todo o corpo
encerra o seu mistério,


evidentemente não ousamos resistir.
Ao fim do dia conhecemos todas as desculpas
para não assumirmos a própria morte, voltar a casa.


Ao balcão todos falam,
tentam calar a evidência
de que cada dia tem um fim.


Paulo José Miranda
in A voz que nos Trai, Cotovia

terça-feira, 25 de junho de 2013

DURANTE UM EXERCÍCIO DE FILOSOFIA


Para a Beatriz Vieira

 
Estou aqui sentado na cadeira que
me cabe como professor, a secretária, o estrado
o negro quadro com restos de giz e marcas de
apagador. A ardósia coberta de falhas, pequenas
feridas nas horas de aprendizagem.
Os alunos aí estão à minha frente, quietos e presos
à rapidez da sua escrita ou à
lentidão que faz de outros a extrema hesitação.
São alunos do curso nocturno e respondem a um
exercício sobre Platão. É tão pouco o que conheço
do mover das suas mãos e deles sei quase e deles
sei tanto sob a distância e a proximidade desta mesa,
deste estrado de aula.
Uma turma pequena, apenas sete alunos, posso
dizer-lhes os nomes: Susana, uma negra de quarenta
anos que vive num seminário adventista (mal
percebo o seu português e irá, decerto, na
pergunta sobre a acusação de Sócrates, escrever-
-me deuses com letra maiúscula e falará deles no
singular); Gonçalo que tem dezassete anos e que,
filho de emigrantes, fala melhor alemão do que
a nossa língua. Vem às vezes contar-me de Ian
Curtis, de Patty Smith, de Jim Morrison e de
Rimbaud e em qualquer livraria descobriu um livro
meu por causa de um dos primeiros. Por causa
dessa leitura, oblíqua, junto à estante da livraria,
veio dizer-me que também era monárquico e desde
então, sempre que vem às aulas, traz na lapela,
nos solenes dias de blazer, as armas coroadas
de Portugal.
O Zé Alberto que é o melhor aluno, todos os dias
tenho que interromper o seu discurso sobre a vida
e os esforços para estar vivo, aqui, nesta difícil
cidade. Depois, as raparigas, Mavilde e
Belmira – lembro-me sempre da Benilde do
Régio –, chegam, nunca faltam, são um confuso
poço de silêncio, sem dúvidas, sem questões,
por demais crédulas e indiferentes à
enunciada mentira dos filósofos.
Ainda há a Filomena, mas não é aluna inscrita,
apenas vem assistir aos meus longos monólogos
sobre o Fédon.
Por último o Zé Manel – o único com quem
gostaria de tomar um café depois da prisão
das aulas e saber que livros lê, que vinho
bebe, de que música gosta. (Interrompeu-me
a Susana perguntando se saber e conhecer
são coisas diferentes.)
 
Mas os meus alunos vêm quase todos embrulhados
em kispos, em coisas pardas e tudo sempre se
passa num tom neutro, pedagógico
até que chegue a hora de nos irmos: eu para
viver, eles para viverem e todos para morrer
e como na Apologia nenhum de nós saberá quem tem
a melhor sorte. Ninguém, excepto
o deus.

João Miguel Fernandes Jorge
in A Jornada de Cristóvão De Távora (Segunda Parte), Presença.

ESCADA DE SALVAÇÃO


Madrugada madrugada,
não tem importância.
Saguões torcidos por caracóis de ferro.
As criaditas e a enfermeira que mora num r/c vinham ali
tarde mostrar cintos de ligas. Perdida
na autoestrada, amor no restolho. Às cinco sonhava-se
sortido imperial com aroma ou torradas e chá.
Algumas moedas para gastar o adolescente
nos matrecos e na máquina do suicídio.
Pulseiras de latão, que os ciganos transaccionam.
Depressa depressa, antes que o mar acabe.

Paulo da Costa Domingos
in Carmina, Antígona.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

WHITE PEBBLE


Without head without limbs
It appears
With mad pulse of chance
It moves
With shameless pace of time
It holds each thing
In its passionate inner embrace

A white polished virgin corpse
Smiling with the eyebrow of the moon


Vasko Popa

in Homage to the Lame Wolf (Charles Simic, trad.), Oberlin College Press.

Pedro Costa - O Sangue (1989)


Despertar


A tua cabeça, tão doente, encosta-se à minha,
Tão cordata. Não consegues lembrar-te
Por que estás aqui, nem reconheces
Estas mãos auxiliadoras.
Meu amor,
O mundo cerca-nos. Vamos perdendo terreno.


Ian Hamilton

in Cinquenta Poemas (Nuno Vidal, trad.), Cotovia.

CÃO DE CEGO


Num cesto baixo estão amontoados os jornais.
No soalho aos quadrados de madeira, um sapato
e uma gravata de cores absurdas
para quem conhece as tuas repressões.
Numa banqueta pousam as revistas
e o ruído do aspirador conjura-se à toada
da máquina de lavar roupa e à louça
que estremece sobre o frigorífico.
É um interior holandês ou português?
Com o quadro suspenso por grossos cordões,
o veludo rasgado do divã e as estantes
de livros inúteis e imperdoáveis, talvez seja
um baldio dos afectos, uma terra de ninguém.

Hoje o céu vai alto e atravessam-no os corvos
com um mistério duro nas asas peregrinas
sobre a campa rasa do mundo.
Espiras de telha preta reflectem o meio-dia;
mais longe rodam aros de um moinho.
As coisas banais junto das que depois hão-de vir

Os tornozelos, a rótula, o osso da bacia
eram mais largos do que eu supunha
ao ver-lhe o vulto esguio na escada;
assentava bem na terra sem altura da Holanda
todo esse corpo que eu prendia,
um sino de água desapiedado.
Já não estava ninguém no salão patriarcal,
estávamos nós a falar de fungos, de pó-de-talco, de vacinas
à espera que se detivesse a noite,
que fossem mais firmes os dedos arrependidos.

Quando te vês ao espelho é o que não vês
a farsa da piedade
e da contrição.
Estou tão cansado, cão.
Não acendas nada, apaga
a sombra do candeeiro, a paz,
a viseira do costume. A lapela do casaco
ressoterrada de lume.

Joaquim Manuel Magalhães

in Sloten (As Escadas não têm Degraus, 3), Cotovia.

Jandek, Ready for the House, 1978.


O café bebe leite, coca-cola
E sumos de laranja e de limão.
A adolescência, quando sai da Escola,
Invade-o de alegria e confusão.

Eu, com a minha idade e uma cerveja,
Escondo-me nas folhas do jornal,
Pra que ninguém me veja
Sem me achar natural.

E sei que já por dentro também envelheci.
E tudo quanto me destrói, agora,
É o desejo de ficar aqui,
Envergonhado de não ir embora.


António Manuel Couto Viana

in Café de Subúrbio (As Escadas não têm Degraus, 4), Cotovia.

4

Interroga-me casual, enquanto recolhe o prato e os talheres do lugar vazio em frente: Senhor Jorge, sabe quem perguntou hoje por si? (Quem? pergunto-me) Quem? pergunto-lhe. Ninguém, responde-me. E ri contente da graça conseguida, ri comigo em gargalhada companheira. Rio-me com ele da inesperada verdade (como se pela boca da criança). Rio-me de mim, de todos nós, e sinto a ternura humilde do seu gesto (ternura anónima tão límpida). Fê-lo porque reparou no meu semblante carregado. Fê-lo porque fundo sabe sua esta verdade tão nua.
 
Jorge Roque
in Canção da vida, Averno.

Red House Painters - All Mixed Up