domingo, 22 de dezembro de 2013

Demora-te sobre a pele do espelho,
(Teu corpo por empréstimo)
Ignora a idade
Que à porta deixaste.
Não olhes a ferida em cave de pé alto
Onde tudo está:
Água de estrelas, palavras de gesso;
E na aragem rente ao chão outro desconcerto,
Treva imensa, outro género de luz.



Nunes da Rocha
in Óculos sujos, fígado gordo (&etc).

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

SCHUBERTIANA

I

Ao anoitecer, num lugar dos arredores de Nova Iorque, um miradoiro do qual com um só olhar é possível avistar as casas de oito milhões de pessoas.
De longe, vista assim de lado, a megacidade é um cintilante montão de edifícios, uma galáxia em espiral.
Dentro dela põem-se cafés nos balcões, montras mendigam a transeuntes, miríades de pares de sapatos não deixam o menor rasto.
Íngremes escadas de salvação, ascensores em permanente função, atrás de portas com fechaduras de alta segurança, um marulhar constante de vozes.
Corpos prostrados meio adormecidos nas carruagens do metro, essas catacumbas itinerantes.
Também sei - sem base em dados - que neste mesmo instante se toca Schubert, algures num quarto ao longe, e que para alguém essas notas são mais reais do que qualquer outra coisa.


Tomas Tranströmer
in 50 Poemas (Relógio d´Água).
I
 
Calendário repleto de compromissos, futuro incerto.
O rádio trauteia uma canção popular sem nacionalidade.
Cai neve no mar totalmente gelado. Vultos
         acotovelam-se no cais.

II
 
Acontece, a meio da vida, a morte bater-nos à porta
e tomar-nos as medidas. Essa visita é esquecida,
e a vida continua. O fato, porém, esse
          é cosido em silêncio.
 

Tomas Tranströmer
in 50 Poemas (Relógio d'Água).

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas

fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos

encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.


António Franco Alexandre
in Poemas (Assírio & Alvim).

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

sob um chapéu de largas listas verdes e azuis
conto, porque vi, a mais história da guerra portuguesa:
um rapaz levando o seu amigo, com menos uma perna, para o
mar, sob a areia que  o vento levemente erguia.

Escrevo um jarro de anémonas uma gravata de riscas
uns grossos aros de tartaruga.
Escrevo tudo isto em defesa do figurativo? Hockney e Kitaj
trazidos na capa da revista, não vou dizer qual é, dois corpos de
homem, um nu, outro apenas de camisola de alças peúgas negras
sapatilhas, ainda uns óculos a correia de um relógio
o sorriso sobre a tela branca.

Trazia comigo uma alegria que não morria e
vinha de haver contra o mar
as águas das piscinas,
os retratos de todos os amigos.
Flaubert Auden Isherwood Cavafy ou apenas juventude.


João Miguel Fernandes Jorge
in Obra Poética, Vol.3, Presença.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O CRIMINOSO DA MODA


Ogni tempo ha il suo fascismo.
                    PRIMO LEVI


O criminoso não é
a soldadesca de Hitler
agora, o criminoso

da moda seduz: à cama
leva nos braços a vítima,
ameaça a céu aberto

sob o sol primaveril.
Primeiro beija, de Judas
aperfeiçoou a técnica

do cânone, truques novos
tem também de malas-artes.
Lança minhoca, sorri

como quem coita não quer,
tudo faz de olhos cerrados
— só depois os cães açula.

José António Almeida
in Obsessão (&etc).

terça-feira, 26 de novembro de 2013

IV

Fora da natureza, meu corpo nunca mais
Assumirá a forma das coisas naturais,
Mas sim uma das formas que criam os ourives
Gregos, com esmalte de ouro e ouro martelado,
Para manter um imperador sonolento acordado;
Ou para, sobre um ramo de ouro, entoar cantos
Que falem aos senhores e damas de Bizâncio
Do que passou, ou está a passar, ou há-de vir.


IV
Once out of nature I shall never take
My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.



W.B. Yeats
in As Escadas Não Têm Degraus (Joaquim Manuel Magalhães, Maria Leonor Telles, trad.), Cotovia.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

6.

morriam longas cobras de água verde a estibordo dos lábios
e o nácar dos dentes fendia a geada
navegávamos sem bússola um dentro do outro
com o peso das tristes asas do albatroz no coração

passávamos os dias espremendo polposos frutos
beijos nos músculos tatuados de pin-ups dolorosas virgens
araras panteras brancas mapas geometrias misteriosas
riscavam-se os punhos com silêncios inexplicáveis
não me lembro se alguém gritou e morreu
percorríamos o areal
onde esquecemos os desejos dados-à-costa

a pouco e pouco habituei-me à solidão deste quadrante
sem destino
o fogo devorou as esperanças duma possível felicidade
espero com as aves uma mudança brusca de tempo
ou o regresso às simples profecias

mas ainda estou vivo... acordado
para rasgar o calor tremendo das cinzas
deixo a pouca vida que me resta
emaranhar-se nas quentes lágrimas das ilhas


Al Berto
in O Medo, Assírio & Alvim.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

[...]
 
M.S.Lourenço: Eu sentava-me diante dela [G. E. M. Anscombe] com o meu caderno e os meus livros; se eu tinha preparado, por exemplo, alguns problemas e dificuldades sobre proposições elementares, a sessão começava com um longo silêncio, durante o qual eu às vezes recitava para dentro o meu veni creator spiritus, mentes tuorum visita e ao fim da qual começava um diálogo do seguinte género:
 
Ela: Are you thinking?
Eu: Yes.

(Novo silêncio.)
Ela: Intransitive?
Eu: No.

(Novo silêncio.)
Ela: What about then?
Eu: Elementary propositions.

(Silêncio mais prolongado).
Ela: Give me an example of one.
Eu: I can’t.
Ela: Very Good.

.....
 
in  A Teoria do Programa. Uma homenagem a Maria de Lourdes Ferraz e a M. S. Lourenço; A. M. Feijó & M. Tamen (eds.), Lisboa: Programa em Teoria da Literatura, 2007.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Não mais, coração,
Atravesses a passadeira.
É muito o trânsito
Quando frívolo,
De sístole em desconcerto
Caminhas.
Segue pelas ruas estreitas
E, sob as sardinheiras,
Confia à arritmia
A surpresa que bate
Cada um dos dias.


*


Sou também «poeta obscuro»
Por meticulosa embriaguez
Num bairro moderno.
Se a vertical me falha
É por hesitação
Entre a vontade histórica
De morrer
E a reincarnação no dia seguinte.
Macerado veneno ilumina
A minha boca,
Sustenta palavras desiguais
Entre o último
E primeiro comboio.
Se me inclino sobre o poema,
Desaparece o cometa.


Nunes da Rocha
in Óculos sujos, fígado gordo (&etc).

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

I PUT A SPELL ON YOU

Tu não sabias de que lugar eu vinha
nem quem me enviava. As máquinas pareciam transbordar
sobre os campos, disseminando a noite
em plena marcha. E eu estava tão cansado quando me sentei
ao teu lado. Generosamente pousaste a tua mão.


Os dias por vir jaziam amordaçados
debaixo da terra, nada fazia prever as cartas
que te escreveria. Algumas levavam fotografias, eu a olhar
para ti no ar desfocado. Mas as notícias que te dava
em mau inglês eram omissas, nunca respondi às perguntas
que me fizeste. Acho que o desalento já estava deitado
na cama, a própria parede parecia
muito doente.



Rui Pires Cabral
in Música antológica & onze cidades (Editorial Presença)

domingo, 17 de novembro de 2013

COM O ESPÍRITO DA CASA 

Acabei hoje o sabonete cujo uso iniciaste aquando
o teu último banho cá em casa. Ficaram coisas que
te pertencem e que não sei se deva guardar,
a saber: um candeeiro, um desenho, uma fotografia.
Outras coisas ficaram
alguns discos e já não sei que livro. Não ferem
tanto.
Há ainda a memória da pele, o amarelo dos olhos e
algumas expressões do teu português falado.
Mas estas últimas coisas já se confundem com o
espírito da casa, quero dizer-te com a poeira da
casa.


João Miguel Fernandes Jorge
in A Jornada de Cristóvão De Távora Primeira Parte, Presença.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013



A FORÇA DE ESPERAR

Mais vale falar para confessar o meu quinhão de sorte:
Não tenho nada de meu, tudo me tiraram
E os caminhos onde acabarei morto
Ando por eles como um escravo de cabeça baixa;
De meu só tenho o que sofro:
Lágrimas, suores e o mais penoso esforço.
Tudo somado sou um objecto de piedade
Se não for de vergonha aos olhos do mundo dos fortes.

Como não importa quem tenho uma vontade
Desvairada de comer e de beber;
Quanto a dormir sinto uma nostalgia ardente:
Como uma besta, num interminável quente.
Durmo pouco ou nada, folguedos não são comigo,
Nunca fodo uma mulher bonita;
E, todavia, o meu coração, vazio, vai sempre a direito,
Apesar da dor, nunca pára para parar.

Poderia ter rido, ficado tonto com o meu capricho
A aurora em mim podia escavar seu ninho
E resplandecer, subtil e protectora,
Sobre os meus semelhantes que teriam florido.
Não tenhais piedade, se a vossa escolha
É serdes estúpidos e sem justiça:
O dia virá em que serei
Um dos construtores de um edifício vivo,

A multidão imensa em que o homem é um amigo.


Paul Éluard

in Últimos Poemas de Amor (Maria Gabriela Llansol, trad.), Relógio D'Água. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Não há baladeiro audaz que por estes dias não arraste atrás de si a sua tediosa oficina poética e insista na evidência das suas chagas profissionais perante audiências de que a vocação de São Tomé desapareceu quase por completo.


Miguel Tamen
in Artigos Portugueses (Assírio & Alvim).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Podei as sardinheiras de seis anos.
A meda dos ramos no telheiro
secou ao vagar de março,
enredou-se nos torcidos nós

aí teceram as aranhas, uma gata
pariu uma ninhada
e as milhariças negras e
castanhas com os paus de musgo

começaram por buscar insectos,
descobriram lugares aveludados,
tentaram esconder um ninho.

Línguas de ar sanguinolento
correm nos sulcos calcinados.
Nada. Nada quer dizer.


Joaquim Manuel Magalhães
in Segredos, sebes, aluviões (Editorial Presença).

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A UM JOVEM POETA

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina
in Poesia Reunida, Assírio & Alvim

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

III
 
É fácil ver ainda nos cadernos escolares, no espólio que as razões de família acautelaram em arcas protectoras, a cólera das cores, a impaciência dos traços que rasgam o papel: imaginava dunas ocres, chuva a desabar num ímpeto castanho, animais de chifres encarnados resistindo à matança, lobisomens com a violência azul dos cavadores a levantar a enxada, sóis estilhaçados, como se a luz batesse nas janelas e a criança as partisse.

CASA

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

PAPEL
 
Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto, vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.

PORTA

A porta que se fecha
inesperadamente na distância
e assusta o romancista
que descreve o seu quarto de criança
(é difícil dizer
se os velhos arquitectos
que punham tanto amor
na construção do quarto
teriam ponderado com rigor
a escala deste som
e o espaço coagulado
ao fundo do corredor)
a porta que se fecha no passado
sobressaltando a escrita e o escritor.

PRAIAS
 
Dorme, flutua numa espécie de lago. A respiração dos seios empurra contra as paredes do quarto, em ondas lentas, o meu corpo afogado. Não consigo dormir.
Esperarei toda a noite nessas praias de cal, desertas, verticais.


Carlos de Oliveira
in Sobre o Lado Esquerdo (Trabalho Poético), Livraria Sá da Costa Editora.
O HOSPITAL

Há um ano, apaixonei-me pela funcionalidade de uma ala
De hospital: uma fila de compartimentos quadrados,
Betão, lavatórios - o desespero de qualquer amante de arte -,

Para não falar do modo como o fulano na cama ao lado ressonava.
Mas nada o amor interdita,
O comum, o banal, podem o calor dela conhecer.
O corredor conduzia a uma escadaria e, por baixo,
Ficava a imensa aventura de um pátio com gravilha.

É isto que o amor faz às coisas: a Ponte de Rialto,
O portão principal que o peso de uma carrinha amolgou,
O assento nas traseiras de uma cabana que era um foco de luz.
Nomear estas coisas é o acto de amor e a sua promessa;
Já que nos cumpre registar o mistério do amor sem desconversar,
Resgatar do tempo o passional transitório.


Patrick Kavanagh
in Estradas Secundárias: Doze Poetas Irlandeses (Hugo Pinto Santos, trad.), Artefacto.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

VÁRIAS CURIOSIDADES AVULSAS

É curioso como
os olhos se acendem ou apagam
independentemente de estarem abertos ou não.

*

É curioso como
uma coisa já de si simples
por amor da clareza fez por tornar-se
ainda mais simples,
cada dia um pouco mais simples,
a ponto de hoje passar aos olhos de todos
por algo tão estranho e complexo
e escandaloso
(como uma vela diante da perna de uma mulher,
como um sal tão salino que consome a colher).

*

É curioso como
Deus para uns existe, para outros não,
para si próprio não sabemos.

*

É curioso como,
num concerto,
dum violino dizemos que ressoa,
dum velho, que ressona:
quando ambos só deitam cá pra fora
o que lhes vai na alma por via sonora.

*

É curioso como
os mercados se mostram apreensivos, apreensivos.
Eu julgava que os mercados eram sítios
onde se compra fruta.
Será que a melancia
também anda apreensiva? Será que
só o diospiro consegue guardar a serenidade
no seu coração tão vermelho?
Depois me explicaram que os mercados são sítios
onde se compra títulos, que é proveitoso adquiri-los.
Alcancei que adquirir um título é deveras uma coisa gloriosa,
logo decidi que sim e qual:

A Ilustre Casa Ramires.

Sendo eu detentor deste título
(a notariar terça que vem)
aplicá-lo-ei ao que bem entender
e já está decidido que
A Ilustre Casa Ramires
será o novo nome das minhas

botas de inverno.


José Luís Costa
in Da Madragoa a Meca, &etc.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

XVII - O QUARTO

Neste quarto que me priva
da voz, visão e ouvido do mundo,
entre renúncias, sobrevive
a minha existência;
o que será uma memória
irrenunciável do vazio,
um trajecto deserto,
sem temperatura, até um desejo
de magoada serenidade.
De uma idade terminada.


Rui Miguel Ribeiro
in XX Dias, Averno.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Assisto (assistimos os dois) em silêncio à ressurreição das florestas, também silenciosa. Ralanti desfocado (imagem por imagem) e contudo nítido no conjunto. Examino a ideia (é-me imposta de fora: não fui eu a elaborá-la) duma catástrofe serena, planeada, às avessas, e isso assusta-me ainda mais. Exacerbando sentimentos comuns (espanto, medo), mas inserindo-se numa experiência nova (signos doutra lógica e doutra realidade), a ideia insinua que estou a viver por conta própria e a sonhar por conta de alguém.
 

Carlos de Oliveira
in Finisterra: Paisagem e Povoamento, Assírio & Alvim.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

JOÃO

nunca um engravatado nervoso, tímido
funcionário do violão ou não
cometeu tanta extravagância e beleza


outros engravatados
de loquela, majestade e mestria, se acumularam
na bossa nova, na música popular (o abraço
merecido ao Bonfá, que toca agora) - não foi
ninguém porém tão


endemoninhado, precioso, preciosista
quanto João Gilberto
abandonando às vezes plateias rumorosas
turbulentas


néscia e frondosa é a juventude, sobretudo tão
sem peia, desengravatada


João some no palco, se atrapalha
na cortina


não encontra saída para esta insolência mal sincopada
o caminho de volta para a Copacabana interior
ou a delonga incessante em apartamento sobre o mar
inundado de luz - de luz própria -


e por ali, no violão gago (tartamudos também estes versos)
ser plateia de si mesmo



Miguel-Manso
in Tojo, Relógio D' Água.


Stan Getz/João Gilberto - Pra machucar meu coração
Este trabalho de perder. Diz-se, e muito: a escrita é isto, é aquilo. E depois organizam-se festas, atribuem-se corações, arranja-se um parágrafo a mais para a poesia no currículo. Hoje, por exemplo, conseguiu-se enfiar mais esta palavra. Envia-se q.b. à “tradição”, mas com a vantagem de a “renovar”. Um pedacinho de rúcula colocado no prato por uma pata de porco. E durante o dia anda-se calmo, discute-se mais um bocadinho: “sim, mas não te esqueças do que X disse sobre isso.” E no autocarro vai-se feliz, anota-se no caderno preto: “não esquecer de referir isto a Y.” Não, não, meu querido, você é que é poeta!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

You got a lotta nerve
To say you are my friend
When I was down
You just stood there grinning


You got a lotta nerve
To say you got a helping hand to lend
You just want to be on
The side that’s winning


You say I let you down
You know it’s not like that

If you’re so hurt
Why then don’t you show it

You say you lost your faith
But that’s not where it’s at
You had no faith to lose
And you know it


I know the reason
That you talk behind my back
I used to be among the crowd
You’re in with


Do you take me for such a fool
To think I’d make contact

With the one who tries to hide
What he don’t know to begin with


You see me on the street
You always act surprised
You say, “How are you?” “Good luck”
But you don’t mean it


When you know as well as me
You’d rather see me paralyzed
Why don’t you just come out once
And scream it


No, I do not feel that good
When I see the heartbreaks you embrace
If I was a master thief
Perhaps I’d rob them


And now I know you’re dissatisfied
With your position and your place
Don’t you understand
It’s not my problem


I wish that for just one time
You could stand inside my shoes
And just for that one moment
I could be you


Yes, I wish that for just one time
You could stand inside my shoes
You’d know what a drag it is
To see you


Bob Dylan - Positively 4th Street

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

SANTO TIRSO

à maneira de Larkin


Ao mostrar-me o colégio, vinte anos passados,
o director conduziu-me ao meu antigo quarto.
Emocionou-me ele lembrar-se melhor do que eu.
Lembrava-me, mais que do meu, do quarto vizinho.
E de velhas conversas às janelas geminadas.
Mas passado já o tempo dos interrogatórios,
o director não suspeitou das minhas recordações.
E por cortesia para com o antigo aluno,
antes de abrir a porta, para evitar o choque,
avisou-me que tinham modificado o quarto.
Eu não tive possibilidade de dissimular
uma expressão alegre que ele não entendeu.
Tinham derrubado essa parede que nos separava,
e os nossos quartos são agora o mesmo quarto.

José António Almeida
in As Escadas não têm Degraus, vol. 2, Cotovia.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

1.

Não sei adivinhar as tempestades.
No fim de uma estação as borboletas morrem
e o vento quebra nas varandas altas.
É por trás dos vidros que então nos defendemos
de todas as surpresas: morremos de antemão.
E sob a trovoada
assombra-nos o voo dos pássaros à chuva.


5.

Desencanto a voz. Uma atenção miúda
faz daquele arbusto um feixe de absurdos.
Narinas deste cão centrando um mundo
e duas abelhas ali ao mesmo tempo:
é isto que agora só interessa – atravessar
o jardim pelo meio da cidade
muito calado para entrar em casa.


6.

A chuva alterou toda a paisagem.
Novos charcos e folhas mais brilhantes
um halo que custa a desvelar.
São guarda-chuvas o que os homens abrem
cafés despenteados por rumor de gabardinas.

Mesmo com sapatos sou um cão à chuva
e tenho os pés molhados como queria.


23.

Viciei os olhos em pequenas coisas
desviei-os para longe e estendi a mão
na direcção de cinzas. O mundo desfaz-se
de pequenas coisas em pequenas coisas
os olhos viciados numa laçada
de irrealidade - ah pudesse haver sequer
uma borboleta cega chamando nas vidraças.



Carlos Poças Falcão
in Arte Nenhuma (Poesia - 1987-2012), Opera Omnia.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

    [...] Vamos criando distâncias pela vida fora, vamos morrendo uns para os outros. E também vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons-dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: Ó pá, inda és vivo?) quando me vêem respirando e mexendo dentro da minha farpela pobre. Dormi mais de dez anos com o cadáver da minha mulher e na mesma cama. Jamais nos conhecemos, fomos sempre dois mortos um para o outro. São coisas que acontecem.
 
    Deito-me na minha cama, sozinho. O óculo de meu defunto pai? tio? aponta na janela para um destino incerto, Norte ou Sul, Norte e Sul, tanto faz. O teodolito... não falemos em tais fantasias. Estou agora muito cansado. Enchi vinte e cinco páginas que foram as que me deram para encher. Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer. Escrevo como o Hemingway - à tabela: tantas páginas, tantas mil palavras, tantos tostões. Eis aí um morto simpático, o Hemingway, suicida carregado de glória, um milionário-suicida. Basta de mortandade, porém. Matei mais gente que a Santa Inquisição. Estou na verdade cansado.
 
   A Umbelina ajoelha à beira da minha cama. Passo a mão devagar por aquela máscara vazia, pela caveira esburacada, pelos seus cabelos, farripas podres esverdeadas a despegarem-se do crânio, acaricio-a ternamente suavemente até eu próprio perder o medo àquilo. O medo do sono. O medo do esquecimento. E então, enquanto continuo a dormir, ela acaba ternamente suavemente com a sua pata ossuda suavemente de me bater a punheta. Como se embalasse um filho. Ou desse o último aperto de mão, pela última vez se despedisse de um condenado.

Luiz Pacheco
in 'O teodolito' (Exercícios de Estilo), Editorial Estampa.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

[...] corta essa de solene, desce aí dessas alturas, entenda, ô estratosférico, que essa escalada é muito fácil, o que conta mesmo na vida é a qualidade da descida; não me venha pois com destino, sina, karma, cicatriz, marca, ferrete, estigma, toda essa parafernália enfim que você bizarramente batiza de 'história'; se o nosso metafísico pusesse os pés no chão, veria que a zorra do mundo só exige soluções racionais, pouco importa que sejam sempre soluções limitadas, importa é que sejam, a seu tempo, as melhores; só um idiota recusaria a precariedade sob controle, sem esquecer que no rolo da vida não interessam os motivos de cada um - essa questãozinha que vive te fundindo a cuca - o que conta mesmo é mandar a bola pra frente, se empurra também a história co' a mão amiga dos assassinos; aliás, teus altíssimos níveis de aspiração, tuas veleidades tolas de perfeccionista tinham mesmo de dar nisso: no papo autoritário dum reles iconoclasta - [...] 
 
Raduan Nassar
in Um Copo de Cólera (Relógio D' Água)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

NUMA PONTE, SOBRE AS ÁGUAS


O pai assim doente
está sempre a atravessar
a grande ponte
Diz coisas como
é mais um dia fora da vida
e de repente a luz dourada

Vai repetindo os nomes
das vidas que perdeu
entre ventos, o trânsito que não pára
paisagens do mundo tão suspenso

Mostra a noite em seu redor
e recolhe o fio que prende
a dispersa coroa de pássaros

Luzes e luzes nascendo das camadas
de breu acumulado, um ar dolorido
que insiste, aqui, nestes pulmões
as luzes que chegam de um mesmo fundo
subitamente mais iluminado

Que velhas frases rodopiem sobre as águas
cruzadas e correndo de novo
entretecidas, precipitadas
quase para sempre

O pai não sabe o enredo que viveu
mas é apenas tudo o que enfim se retoma
um pouco tarde, longamente segredando
o seu vivo esquecimento
assim numa ponte, sobre as águas

José Manuel Teixeira da Silva
in O Lugar Que Muda o Lugar, Língua Morta

sábado, 27 de julho de 2013

MAGNÓLIA - PAUL THOMAS ANDERSON (1999)


4. (Linda Partridge)

O sofrimento gera culpa, a culpa
embaraça-nos os passos, embacia-nos
o dia para sempre. Enredados
em suspeitas corrosivas, não podemos
ser iguais a toda a gente, entregar
ao farmacêutico a tutela do pecado.
Que fazer com estas asas de alumínio,
perguntamos. Que fazer?

Sanguíneo, optimista, com medalhas
de gordura na lapela - tudo passa,
anuncia o boticário, com Prozac
tudo passa; não se esqueça: tome
dois de manhã cedo, pense menos,
e vai ver como o abismo tem aspectos
multiformes, positivos, confessáveis.


José Miguel Silva
in Movimentos no Escuro, Relógio D'Água

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Gerhard Richter

 
Gerhard Richter - Confrontation 2 (1988)
 
"The three paintings entitled Confrontation 1–3 [...] show Gudrun Ensslin, a German terrorist of the Red Army Faction (RAF). The paintings refer to a chronological sequence of photographs, which were taken at Essen prison after Ensslin's arrest in summer 1972. When transforming the photographical source images into paint, Richter cropped the image decisively: whereas the standing Ensslin is captured full length in the photographs, in the paintings only the upper part of her body is depicted – in almost life-size.
 In cropping the image, Richter reduces any information about Ensslin's surroundings. He forgoes another detail in addition: in the photograph that shows Ensslin looking directly at the beholder, she carries a number plate in her hand, which corresponds with Richter's original title Gegenüberstellung (= identity parade)."

 
 

O ATALANTE - JEAN VIGO (1934)




No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.


José Miguel Silva
in Movimentos no Escuro, Relógio D'Água
*

a morte está tão atenta à tua força contra ela,
enquanto ávido e acerbo cantas debaixo da água enviada,
¿acaso contes adormecê-la com a música turva?
quem se expõe à água ganha os poderes da nomeação mais simples,
apenas um duche, dizes,
há muito já alguém pediu o mesmo,
que ela recuasse,
ilhargas, ombros, dedos, o movimento dos cabelos,
o corpo solitário,
um canto último fundido ao início do canto,
mas a morte sabe que não há razão nunca,
e quem pede sabe que não pode,
teias de água fecham a tua grande nudez,
e dizes: um duche, apenas um inebriamento,
mas a morte não tem paciência para apurar um dialecto,
nada, só o arroubo táctil onde apoias a dor, desequilíbrio e medo,
enquanto falas do que nem ela entende,
agarrado à dura
dura
coluna de água


Herberto Helder
in A Faca Não Corta O Fogo, súmula & inédita, Assírio & Alvim

terça-feira, 23 de julho de 2013

Courbet

 
Gustave Courbet - Le bord de mer à Palavas, 1854.

*

a faca não corta o fogo,
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca,
¡que língua,
que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c'est quando le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é de Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder
in A Faca Não Corta o Fogo, súmula & inédita, Assírio & Alvim

AL BERTO

 
 
 
O que é um romance?

- É aquilo que um autor quiser que seja. O Herberto Hélder [sic] tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema... Não vejo por que é que essas coisas hão de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isso é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria... É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso... é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto...
 
 
Al Berto
in revista Ler, nº5 (Inverno), 1989.

domingo, 21 de julho de 2013

E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já)
Ser entregue numa salva,
Não sou nenhum profeta - e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.


T.S. Eliot
in A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock (João Almeida Flor, trad.), Assírio & Alvim

me ajuda, roberto




Mas sempre acabo em teus braços do jeito que você quer – só que sempre ao contrário. Aí você está num bar super mal resolvido sexualmente e afetivamente e se depara com dois, três, quatro casaizinhos esteticamente incorretos e aparentemente felizes – afinal existe uma linha muito tênue entre felicidade e cerveja, por isso não vou forçar a barra. Então você marca um encontro com o suposto amor da sua puta vida em pleno final de semana do absurdo. Coitada, a gata está equivocadíssima. Mas como se não bastasse, você mantém aquele ar in extremis dos falsos profetas, fala muita merda, conspira a favor da autosabotagem e no dia seguinte corre pro banheiro pra vomitar sua humilde existência. Ficção pouca é bobagem. A vidinha anda insossa, eu não desgrudo do computador, eu gasto meus pobres míseros trocados demais, eu busco muito um filme sobre a realidade estagnada da vida na perspectiva de jovens como nós em pleno século XXI. Passo horas ao telefone decifrando pequenos dramas que se perdem no espaço. Ando perdido no lance cósmico e real da coisa. Aí o carinha disse que temos uma história, mas nossa história é para um futuro não tão próximo assim. Inclusive todos os meus brindes serão dedicados ao futuro. Mas eu me sinto horrivelmente belo.
 
 
Antônio LaCarne