quinta-feira, 22 de setembro de 2016

eu já habitei estes bosques de fúrias e armadilhas
e contudo a fúria do outro já não é o meu desejo
(o meu desejo há muito eclodiu na sua própria fúria)

hoje em horas de gás retomo a visitação
daquele leopardo branco sempre tão ajeitado
aos olhos da bela senhora que 
tudo lê e esquece

vou de trono arrastado por onde calha
vidrado e irremediável na larga fossa da lua
o prestígio da cobra ensurdecida ao ombro
morta de fala e de calor assim coroada

por desfastio fui tirar a temperatura à razão
reclamei a reza inglória do meio da vida
dividido e suprimido voguei em alheios contratempos
lúcido perdi o norte em múltiplas folhas de sangue

pois que se me queima enfim a principesca dúvida
(dedo enovelado em tempestade balnear) –
agora escolho invariável a jornada contrária
e na triste esmola do tempo assim contado
guardo para sempre todo o meu desafecto

aí está tudo o que não poderei ter
se procurar o tempo e os seus feitos
risíveis fulgores no mapa da noite cardeal
– serve-nos este lugar onde tudo arde por nada
pequenino ar esmeralda que me arredonda

um gerânio redimido no eco do rosto
– o que te posso dar
em verdadeiro segredo quero esconder-me
largo e a solo na lenta cacimba da tua hora

ensina-me só e sempre a morder as armas
a sentar-me cerimonioso como manda o poema

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

baixou a dolência dos olhos
retemperou o pânico
na encerada casa de espelhos
sem uma servidão à mostra

(a esmola de um aceno:
repete a pobreza da mão anelada
muito mordida e amestrada)

estas canções de deserção fundidas
na branca economia da estrada:
comove-se o torto timoneiro
aspirante ao jeito meridional

(triste o estóico engolir em seco
o perdão de ornitólogo
– beijo raso na ferida infligida)

estremece de ombro à vela
lancil de mirada panegírica
– atento aos sinais, digo-vos,
não sei fazer outra coisa
palácio só o da memória –

o mijo sai-lhe ácido da figueira
como se de um corpo revolto
tundra reclinada a estibordo
(gruas isométricas eclodem
aos pés da noite escalavrada)

de jornada em diante o gasómetro oscila
em pérfida onda sonora
funda injúria desconversando escuro adentro
– doce minha razão interestelar

vai a trote esporeando o nome das estrelas
(tem só uma história para contar)
peso arqueado no teatro da mula sofrida
a visão crepita num empedernido bordel
em vaga rota de suor e creolina
(donzel: esse rosto que francamente)

– hei-de pôr as mãos em ordem nesta terra
coisas estranhas acontecem todos os dias

quarta-feira, 1 de junho de 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

«Sempre detestei a poesia de espalhafato, essa que se serve de todos os estratagemas de efeito mais recente, ou que parecem tal, para tentar promover o seu autor ou a sua autora. Sempre detestei os tolos e as tolas que se põem a usar a chamada banalidade processual para atingir a densidade de não sei que vazio; que se dispõem a poses tão ridículas para atraírem a atenção dos que confundem a escrita com a atracção de feira. Aparece sempre quem arranje suportes teóricos e laracha verborreica para promover esses e essas patetas; quem seja capaz de invocar tropas de filósofos mais em moda para defender um ou uma qualquer saltitante atrás do que mais calha: quer do pseudónimo em apito até à fotografia elaboradamente extravagante, da pilhéria frívola ao fogo de artifício dos simplismos arvorados em verdades anímicas. Seja em novos seja em menos novos, seja em poetas seja em críticos, sempre hei-de abominar estas e estes saltarilhos do instante, estes e estas seguidistas das trepidações supostas. Se há rançosos e rançosas assim em ebulição ou em enxúndia por aí, felizmente que também há quem permaneça entendendo a radical preocupação do acto vocabular com outras muito para além do balofismo promocionante. Que (são tão engraçadas estas coisas), nunca mais conseguem deixar de vir, nesta terrinha que persiste em ser lorpa, de Paris.»


- Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre (Presença, 1999).

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Numa biblioteca municipal esquecida
Entre duas sucursais bancárias
Debaixo de dois livros muito finos
Empoeirados
À falta de arrumação
Na trepidante prateleira de plástico
Um livro de Fernando Echevarría
Alheio a todos os dedos curiosos
Do país e já agora do mundo
Sussurrando coisas indecifráveis
Aos berrantes alunos do nono ano da escola
Cada vez mais próximos dos exigentes empregos
Um livro que podia bem calhar a qualquer autor
O velho à entrada da recepção deixa cair
O suplemento cultural
Com as sugestões literárias do dia
Dois dedos tamborilam na estante de plástico
São os segredos comovidos da funcionária da biblioteca
Tamborilam uma chuva triste e muito doméstica
Cai rente a um livro de capa dura
Que dentro já traz chuva suficiente
Possivelmente um dos livros de Echevarría
Perto troveja a gargalhada em uníssono
De muitas camisolas de malha macias
Membros céleres e enriquecidos
Da idade branca e do inverno
Procuram o estorvo das mochilas
Tropeçam para longe da funcionária
Do seu hálito pesado e das suas conversas
Com os livros fechados ou sozinha
Estranhando a utilidade da luz
E a mudança da hora
Numa babel tão comezinha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um exército de dois sai por aí a causar distúrbios entre o reino da infelicidade geral. O país, abastardado pelas novelas da crise, não liga meia, mas eles fundam um jornal nocturno para publicar as ridículas cartas de que falava o outro e vêem, nos dias seguintes, as páginas serem submergidas pelo direito de resposta de um verdadeiro povo, até ali mudo e oculto. A Constituição é reescrita em lençóis sob uma luz que geme nas intermitências do espanto e do prazer. A loucura salva. Fundem-se escolas e hospícios, orfanatos e lares de idosos, bordéis e conventos. Sacrossanta selvajaria! Não há templo onde dois ou mais corpos não possam tomar o altar e gritar «Deus», como uma obscenidade miraculosa. Um país melhor que este seria uma arena onde nos deixaríamos devorar por leões. Um país a sério seria um enorme terreno de caça, para sermos à vez as presas e os predadores. Mas os baldios em que te abandonas por estes dias não servem às grandes conquistas, às etapas heróicas que conspiraste em sonho tantas noites que já meio te esquecem. Um país não é isto. Aqui não se conhece ninguém. Ninguém sai nem volta a casa. Partilhas a cama com uma hiena que se alimenta devagar dessa carne que abandonas a noites putrefactas. Foste mais quando eras menos. Devias ter perdido a vergonha mas só te encheste de mais. Chegaste ao ponto de esperar em filas para votar em coisas como partidos. Ingressaste nas homilias do pequeno poder. Não te abandonas nem te perdes, tens relações sexuais como quem paga impostos e depois dizes o pior de quem te governa e dás por ti deprimido com o estado da nação. Não fazes parte, mas apareces em cada vez mais listas. Foste até ao jantar de natal da empresa. Dizes que tens fé, mas ninguém te dá ordens. Não tens líder, mas também não lideras ninguém. Há dias que te levam convencido de que és especial, mas ninguém está interessado nisso. Vais ao médico pedir uma extensão nos pagamentos à morte. Confundes cada vez mais facilmente a carência com o arrebatamento da paixão. Tens mais desculpas do que razões. A tua vaidade é desespero, o teu orgulho não passa de um longo currículo. Isto é um exagero. Não te revês. No fundo, e ao teu jeito, até és feliz. És livre, educado e tens amigos de sobra. Só no Facebook não para cima de imensos. Não tens vida para tanta vida.

Diogo Vaz Pinto, Anonimato (&etc, 2015)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"[...] No fim de contas, tudo vem a dar na comezinha conclusão de que o escritor não pode esquecer-se de que é, primeiro, homem e só depois escritor, de que este não deve substituir aquele, e de que é fundamental dever do homem ser fiel a si próprio, à sua verdade profunda, qualquer que ela seja, e exprimir-se de acordo com ela, sinceramente e totalmente. A utilidade do escritor está aí, essa é a sua razão de existência. A literatura não é uma carreira."


José Saramago
prefácio a Mademoiselle Fifi e Contos da Galinhola, Guy de Maupassant (Relógio d'Água).