quarta-feira, 1 de junho de 2016

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

«Sempre detestei a poesia de espalhafato, essa que se serve de todos os estratagemas de efeito mais recente, ou que parecem tal, para tentar promover o seu autor ou a sua autora. Sempre detestei os tolos e as tolas que se põem a usar a chamada banalidade processual para atingir a densidade de não sei que vazio; que se dispõem a poses tão ridículas para atraírem a atenção dos que confundem a escrita com a atracção de feira. Aparece sempre quem arranje suportes teóricos e laracha verborreica para promover esses e essas patetas; quem seja capaz de invocar tropas de filósofos mais em moda para defender um ou uma qualquer saltitante atrás do que mais calha: quer do pseudónimo em apito até à fotografia elaboradamente extravagante, da pilhéria frívola ao fogo de artifício dos simplismos arvorados em verdades anímicas. Seja em novos seja em menos novos, seja em poetas seja em críticos, sempre hei-de abominar estas e estes saltarilhos do instante, estes e estas seguidistas das trepidações supostas. Se há rançosos e rançosas assim em ebulição ou em enxúndia por aí, felizmente que também há quem permaneça entendendo a radical preocupação do acto vocabular com outras muito para além do balofismo promocionante. Que (são tão engraçadas estas coisas), nunca mais conseguem deixar de vir, nesta terrinha que persiste em ser lorpa, de Paris.»


- Joaquim Manuel Magalhães, Rima Pobre (Presença, 1999).

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Numa biblioteca municipal esquecida
Entre duas sucursais bancárias
Debaixo de dois livros muito finos
Empoeirados
À falta de arrumação
Na trepidante prateleira de plástico
Um livro de Fernando Echevarría
Alheio a todos os dedos curiosos
Do país e já agora do mundo
Sussurrando coisas indecifráveis
Aos berrantes alunos do nono ano da escola
Cada vez mais próximos dos exigentes empregos
Um livro que podia bem calhar a qualquer autor
O velho à entrada da recepção deixa cair
O suplemento cultural
Com as sugestões literárias do dia
Dois dedos tamborilam na estante de plástico
São os segredos comovidos da funcionária da biblioteca
Tamborilam uma chuva triste e muito doméstica
Cai rente a um livro de capa dura
Que dentro já traz chuva suficiente
Possivelmente um dos livros de Echevarría
Perto troveja a gargalhada em uníssono
De muitas camisolas de malha macias
Membros céleres e enriquecidos
Da idade branca e do inverno
Procuram o estorvo das mochilas
Tropeçam para longe da funcionária
Do seu hálito pesado e das suas conversas
Com os livros fechados ou sozinha
Estranhando a utilidade da luz
E a mudança da hora
Numa babel tão comezinha.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Um exército de dois sai por aí a causar distúrbios entre o reino da infelicidade geral. O país, abastardado pelas novelas da crise, não liga meia, mas eles fundam um jornal nocturno para publicar as ridículas cartas de que falava o outro e vêem, nos dias seguintes, as páginas serem submergidas pelo direito de resposta de um verdadeiro povo, até ali mudo e oculto. A Constituição é reescrita em lençóis sob uma luz que geme nas intermitências do espanto e do prazer. A loucura salva. Fundem-se escolas e hospícios, orfanatos e lares de idosos, bordéis e conventos. Sacrossanta selvajaria! Não há templo onde dois ou mais corpos não possam tomar o altar e gritar «Deus», como uma obscenidade miraculosa. Um país melhor que este seria uma arena onde nos deixaríamos devorar por leões. Um país a sério seria um enorme terreno de caça, para sermos à vez as presas e os predadores. Mas os baldios em que te abandonas por estes dias não servem às grandes conquistas, às etapas heróicas que conspiraste em sonho tantas noites que já meio te esquecem. Um país não é isto. Aqui não se conhece ninguém. Ninguém sai nem volta a casa. Partilhas a cama com uma hiena que se alimenta devagar dessa carne que abandonas a noites putrefactas. Foste mais quando eras menos. Devias ter perdido a vergonha mas só te encheste de mais. Chegaste ao ponto de esperar em filas para votar em coisas como partidos. Ingressaste nas homilias do pequeno poder. Não te abandonas nem te perdes, tens relações sexuais como quem paga impostos e depois dizes o pior de quem te governa e dás por ti deprimido com o estado da nação. Não fazes parte, mas apareces em cada vez mais listas. Foste até ao jantar de natal da empresa. Dizes que tens fé, mas ninguém te dá ordens. Não tens líder, mas também não lideras ninguém. Há dias que te levam convencido de que és especial, mas ninguém está interessado nisso. Vais ao médico pedir uma extensão nos pagamentos à morte. Confundes cada vez mais facilmente a carência com o arrebatamento da paixão. Tens mais desculpas do que razões. A tua vaidade é desespero, o teu orgulho não passa de um longo currículo. Isto é um exagero. Não te revês. No fundo, e ao teu jeito, até és feliz. És livre, educado e tens amigos de sobra. Só no Facebook não para cima de imensos. Não tens vida para tanta vida.

Diogo Vaz Pinto, Anonimato (&etc, 2015)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"[...] No fim de contas, tudo vem a dar na comezinha conclusão de que o escritor não pode esquecer-se de que é, primeiro, homem e só depois escritor, de que este não deve substituir aquele, e de que é fundamental dever do homem ser fiel a si próprio, à sua verdade profunda, qualquer que ela seja, e exprimir-se de acordo com ela, sinceramente e totalmente. A utilidade do escritor está aí, essa é a sua razão de existência. A literatura não é uma carreira."


José Saramago
prefácio a Mademoiselle Fifi e Contos da Galinhola, Guy de Maupassant (Relógio d'Água).

sexta-feira, 25 de setembro de 2015


I wanted the music this new group would play to be freer, more modal, more African or Eastern, and less Western. I wanted them to go beyond themselves. See, if you put a musician in a place where he has to do something different from what he does all the time, then he can do that - but he's got to think differently in order to do it. He has to use his imagination, be more creative, more innovative; he's got to take more risks. He's got to play above what he knows - far above it - and what that might lead to might take him above the place where he's been playing all along, to the new place where he finds himself right now - and to the next place he's going and even above that! So then he'll be freer, will expect things differently, will anticipate and know something different is coming down. I've always told the musicians in my band to play what they know and then play above that. Because then anything can happen, and that's where great art and music happens.

Miles Davis / Quincy Troupe
Miles: The Autobiography (Picador, 1990)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Dádiva

Três e vinte e quatro da noite de natal, poucos táxis de serviço, centrais de chamada em sobrecarga, e ainda dois taxistas que me recusaram a corrida, desviada e pouco lucrativa, em noite de procura assegurada. Tudo isto somara duas horas de espera na praça soprada pelo vento de ninguém. Mãos frias nos bolsos, cigarros contados no maço a minguar, eis a fraternidade do natal, repetia para mim mesmo com ironia amarga, o rude coração da besta que nenhuma veste engana. Ex-lutador de boxe, temido contendor de copos e de brigas, um metro e oitenta e três para noventa quilos de peso (perdera mais de vinte à data em que se lhe declarou a doença), ergui a mão e ele parou, indiquei-lhe o destino e ele arrancou. Não fez qualquer pergunta, não revelou qualquer hesitação, engrenou a mudança com a indiferença de quem para todos os destinos encontrou equivalência e em todos morre. Da doença me falou na segunda metade da viagem, depois do quase despiste que originou a conversa. Diabetes, fígado, mulheres, álcool, erros e erros, ultimamente os rins, tudo isto emaranhado, confundido, e por fim os olhos, era para eles que toda a sua atenção convergia. Trinta por cento de visão no olho esquerdo, quarenta por cento no direito, por vezes havia coisas que lhe escapavam, mas o carro agarrava-se bem, melhor do que se fosse um dos novos, e ele tinha muitos quilómetros nas mãos, várias voltas ao mundo, assegurava, enquanto afastava as mãos do volante e sopesava o ar nas palmas nuas. Fosse como fosse, tinha de continuar a trabalhar, não apenas por ele, mas por quantos dele dependiam, bastantes, deixava antever, na vida aventurosa que havia levado. Filhos, mulheres, noivas, amantes, todos ligados a si por fios que o tempo cruzara, prendera, partira, deixando as pontas caídas nas margens que antes estreitara. A gente quando tem saúde não pensa que a pode perder, afirmou ponderoso, acentuando na pausa todo o implícito, e esta cidade está uma miséria, quem por aqui anda não vê a pobreza que nela vai. Ex-lutador de boxe derrotado, com filhos e noivas dispersos pela cidade, a morrer devagar e a lutar por morrer um pouco mais devagar, olhar fixo como o dos cegos, a percorrer uma estrada mais do que vista adivinhada, por ela avançávamos na noite desesperada envolvidos pelo ruído trepidante do carro (um ronco lasso como se de exaustão do motor, fustigado aqui e ali por intermitências de lata). Do banco do condutor, virando-se para o lado ou fixando-me com os olhos através do retrovisor, ele descrevendo em pormenor o curso da doença, eu ouvindo-o e comentando em linguagem técnica, pois cedo pressentira que supunha em mim o médico que não era. Parou à porta de minha casa e ficou alguns minutos a conversar (tão pobre à luz de presença que acendera para contar com dedos argutos as moedas que perfaziam o troco). O que o preocupava, ele que morria e bem o sabia, eram ainda os olhos, e com eles o trabalho que não podia parar. Desde ontem sentia que andava a ver pior, talvez tivesse feito outro descolamento de retina. Disse-lhe que não devia ser nada, se não havia diminuição do campo de visão, olho a olho testado com a mão a tapar o olho contrário, exemplifiquei para o tranquilizar, não devia ser nada. Despedi-me com pena que tivesse de regressar sozinho, da forma que guiava, cada viagem, parecia, podia ser a última. Desejei-lhe boa noite e boa viagem. Desejou-me boa noite e esboçou um sorriso quase de criança. Longe do natal das famílias, à hora em que estas já haviam apagado as luzes e recolhido os restos de comida e de embrulhos em sacos do lixo fechados, aconteceu este encontro entre desconhecidos que se deram e se despediram, sabendo que não mais se veriam. Não vivo o natal, não me faz falta. Recebo inteira esta mão que para a minha se estende e aperto, contraditório e frágil, o homem que nela se dá. Essa alegria basta-me.

Jorge Roque
Nu contra Nu (Averno, 2014)