quinta-feira, 25 de agosto de 2016

é sua a pergunta que treme na fala:
repete a infância hoje transportada
detrito de jangada à sombra do mar

(a missão era afogar a circunspecta voz –
restam algas, veias, outros petróleos)

transporta as faúlhas marinhas e voga
de olhos esvaziados nos sulcos do sal
ou enegrecidos pela venda estrelada

(finge temer a graça da imensa palavra
– ruidosa côncava cheia de pedras)

palpa o corpo e os dedos entontecem:
a brilhante escuma de uma fábula
teceu-lhe uma segunda pele, largou
um pavio de mundo ao rés da boca –

súbito o estrondo iluminado
de um porto no horizonte

os claros muros da alegria 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

a tremura dos dedos esconde o dinheiro
o rosto inchado engole
as brasas mortas dos olhos

as imensas ideias que lhe dão o justo nome
retornam e não encontram espaço para descansar

um milhão de moedas não te farão mexer a boca
esvoaçares o farrapo a que chamas alma
num soberbo ritornelo em direcção ao sul

torna broto o dinheiro
demora-te nos sobreiros
no seu sereno incandescente

já só uivam os homens e tu ainda sabes respirar
em nada temas os estagnantes lábios dos outros
pela valiosa fome que é a tua

pelo fumo cego que abres no peito – tu a monte
a braços com o volante de uma estrela

terça-feira, 23 de agosto de 2016

quantos anos subtraíste ao tempo
assim lançado pela luz fora
a seara da mão estremecendo
breve a contravento

(cega nos pulmões, a espiga solta
atrasa-lhe o nó da respiração)

vai podando estrela ante estrela
pés na água rasando
o excesso de imagens
raros continentes

tosse em clareiras que irrompem no ar
(fábulas manchadas na forja do peito)

retorce o ar, injuria a pelica do vento
sobretudo tosse cristalino
(mágica súmula)

assim com se inaugura uma voz

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

os carreiros são estreitos para a sua largueza
bêbedo de luas já a manhã vai a meio
(delirando escreveu muitas obras)

meia-noite na ardósia desconhecida
na lasca das unhas que a inscreveram
(luz a lâmina que leva presa ao pescoço)

sangue só seu
borras de frutos
o embrutecido vermelho rural

manhã de pedras contadas
coração contrito
as águas que não sobem
encandeiam o murmúrio dos pés

todas as aves desfraldam o presente
a palavra presente em voo aberto
os peixes são um abismo marinho
os olhos um abismo de doirados peixes –

nunca terá visto um céu assim

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

esta noite é um refúgio de marés:
repensa o olhar quebrado
o coração estriado da concha
revolvendo sons e sonhos

nem perigo nem mestres:
cinge a doce alga entre fartos cabelos
o reflexo enrugado mantém
a gota do silêncio em equilíbrio

longe um aceno lembra o sabor salino
um convite que se estende ao outro
quiçá uma alva estrela tombada entre montes
ardendo até à prata num riacho

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

o cedro espera sozinho

ilumina-o o negro batel
repercutindo uma toada
de folhas mortas

duas mãos que se tocam
e afastam ao som do gatilho
molho de pétalas levadas ao rosto

na tatuagem se apaga a âncora
antes viva e balouçante na enseada da pele

as aves ensinam os céus uma e outra vez
aos amantes invariavelmente equivocados

sangram rosas nos bolsos
retribuem a gentileza dos dias
revolvendo em portas contrárias

de ilha em ilha o amor se afoga
morrendo de luz num qualquer lugar
secretíssimo

domingo, 14 de agosto de 2016

mora nos seus olhos
a romaria dos ramos
pela estrada branca da noite

ajeita o anel do assombro
o lugar da água
na vidência enovelada dos dedos

o livro deixou-o esquecido
no morredouro do recanto
junto ao jorro da lua, aqui e agora
esse estranho vagar do afecto

escuta o tremor habituado do riso –
os anos das árvores em redor tombam
com os gestos vidrados dos salteadores

a larva alastra o sangue seco
rumina e requenta a pergunta
tornada passatempo:
a que se dá afinal este corpo de morte?